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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Casamento, números e costumes

O último artigo publicado sobre a Póvoa de Rio de Moinhos deu conta de um projecto que está em desenvolvimento e que utiliza preferencialmente registos paroquiais*. Com os dados apurados já se apresentaram conclusões interessantes a partir das informações coligidas pelos párocos nos actos de baptismo (Luís Duque Vieira) e de óbitos (Vitor Carvalho). Hoje apresentamos uma outra variável demográfica, o casamento – o acto jurídico pelo qual se forma um novo núcleo familiar.

O arquivo distrital guarda registos paroquiais de mais de 700 casamentos celebrados na Póvoa em cerca de 130 anos, 1773-1905. No início, entre 1773 e 1800, foram realizados 132 casamentos, sendo 102 de indivíduos solteiros, 116 de solteiras, 24 de viúvos e 21 de viúvas. Por estes dados verificamos que era elevado o número de segundos casamentos o que se explica pelo suporte material que a família então representava e a necessidade de manter um círculo familiar onde se criassem os filhos que tinham ficado órfãos.

Os meses do ano mais escolhidos para casar foram aqueles em que não havia tanto trabalho agrícola a exigir o trabalho das famílias e, assim, encontramos os meses de Inverno e a Primavera como os mais preenchidos.

Um outro aspecto a salientar é o das terras de naturalidade dos noivos. Maioritariamente casaram-se com pessoas da terra ou de pequena distância. Nestes tempos mais antigos, final do século XVIII, encontramos noivos e testemunhas originários de diversas freguesias do actual concelho de Castelo Branco, alguns de outros concelhos do actual distrito e ainda dos distritos da Guarda e de Portalegre. Significa isto que as relações sociais dos habitantes da Póvoa se estabeleciam de preferência nas regiões do interior do país já que as vias de comunicação para o litoral ofereciam maiores dificuldades.

No século XIX, nas seis primeiras décadas, não se alteram significativamente os dados referentes ao casamento: os inícios do Outono e o Verão são os menos apetecíveis para as celebrações, continua elevado o número de segundas núpcias, pouco se alarga o âmbito geográfico dos nubentes e permanece a ausência de alianças com citadinos.

Depois desta data passa a haver dados relativos à idade dos noivos. Nuns e noutros, homens e mulheres, os casamentos realizaram-se maioritariamente entre indivíduos na classe de idades dos 21 aos 25 anos. A excepção é nos anos de 1860/69 em que a idade sobe para os 26-30 anos. Também neste período de quase meio século, 6 rapazes de 20 anos, menores, tiveram autorização expressa dos pais para se casarem e celebrou-se o casamento de uma rapariga com 15 anos de idade.

Igualmente passamos a dispor da indicação das profissões dos noivos e das testemunhas. Nos primeiros predominam os jornaleiros, seguidos de perto pelos criados de servir e pelos cultivadores. Moleiros e pastores são também em grande número (25 e 29 respectivamente), sendo reduzido o número de homens dos ofícios. Do lado das noivas a referência é maioritariamente “serviço doméstico”, um número pequeno de “ocupada no serviço agrícola” (11) e costureiras (7). Do lado das testemunhas, a enorme distância, surgem os proprietários (mais de 170); moleiros (mais de cinquenta) e pastores (mais de 40) dão bem a imagem da importância social atribuída a estas profissões.

A análise dos números deixa-nos algumas interrogações que no futuro tentaremos esclarecer: qual a razão da diminuição abrupta de casamentos na década de 1860 e quais as razões de um aumento significativo de matrimónios – detectados numa pesquisa direccionada para anos de instabilidade político-militar – nos anos de 1808, 1809, 1812 e 1846.

A estes elementos numéricos juntamos algumas informações sobre os costumes que acompanhavam a festa até aos anos 70 do século XX. Mantinha-se a preferência pelo casamento no Inverno e na Primavera, não havia despedida de solteiro mas era frequente o noivo oferecer uns copos de vinho aos amigos. O noivo ia buscar a noiva a casa e acompanhava-a e aos seus convidados. Quando se queria distinguir os noivos atapetava-se a rua com verdura e as raparigas levantavam à entrada da igreja arcos enfeitados com flores e cordões de ouro. A festa rija durava todo o dia consistindo as refeições em doces caseiros e pratos de cabrito e de borrego cozinhados de diversas maneiras. Terminada a boda os noivos permaneciam na aldeia gozando agora de um novo estatuto.

Luis Duque vieira

* Quaisquer dados referentes a pessoas nascidas na Póvoa após 1905 poderão ser enviados, por mail para vmpcar[arroba]gmail[ponto]com ou lourval[arroba]hotmail[ponto]com, ou ser entregues, directamente, a Luis Duque Vieira ou Vitor Carvalho na Póvoa de Rio de Moinhos.


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=224&id=19937&idSeccao=2422&Action=noticia

sexta-feira, 12 de março de 2010

Genealogia e demografia, um projecto a desenvolver

Quando está prestes a terminar a série de artigos sobre a Póvoa – Ontem e Hoje, traz-se a público um projecto que tem sido desenvolvido paralelamente por um pequeno grupo de três pessoas que, embora dispersas por Portugal e pelo Brasil, se orgulham das suas ligações familiares com a Póvoa de Rio de Moinhos. Embora exista a intenção de vir a publicar autonomamente os resultados do trabalho em curso, entende-se, apresentar, desde já e de forma sucinta, o que se fez e o que se visa.

Como já referido em artigo anterior, um dos elementos do grupo, procedeu ao levantamento sistemático dos registos paroquiais da Póvoa de Rio de Moinhos, existentes no Arquivo Distrital de Castelo Branco (cerca de 1800 registos de baptismo, 800 de casamento e 2.500 de óbito).

Agora, os outros dois elementos Iniciaram o levantamento dos registos existentes na Torre do Tombo em Lisboa, no período decorrido entre 1560 (inicio do registo) e 1771 (casamentos e óbitos) e 1844 (baptismos), pretendendo-se completar o levantamento de todos os registos existentes entre 1560 e 1905. Para o período posterior, dado que os registos não estão disponíveis, restará o recurso a fontes alternativas, ou á memória das pessoas que o viveram *.

A informação recolhida possibilitará um estudo demográfico global da Póvoa e o conhecimento profundo de como aí se viveu, ao longo dos tempos. Entre muitos outros aspectos será possível saber com que idade se casava, quantas crianças nasciam, número médio de filhos por casal, quantos anos se vivia, nomes mais usuais, etc. Outro aliciante, consiste na possibilidade de apurar a árvore genealógica de qualquer família da Póvoa, ficando-se a saber quem foram os seus antepassados, eventualmente desde o século XVI, desde que se conheçam os que nasceram após 1905.

Embora, o levantamento dos registos existentes na Torre do Tombo ainda esteja em curso, prevendo-se que leve alguns meses a completar, o que só permite retirar conclusões válidas para o período integralmente levantado (1811-1905), é possível, no entanto, proceder a um ponto de situação quanto ao trabalho já efectuado.

Nesta altura, estão referenciados como tendo, comprovadamente, nascido na Póvoa, 7.619 indivíduos, dos quais, 3.879 raparigas e 3.703 rapazes, não sendo possível apurar o sexo de 37 indivíduos falecidos à nascença ou com registo ilegível. O indivíduo mais antigo referenciado, terá nascido por volta de 1520, embora o primeiro baptismo registado tenha sido o de um António, em 17 de Dezembro de 1560.

Desde 1530, os nomes femininos mais utilizados foram: Maria (1.567), Isabel (301), Catarina (293), Ana (212), Joaquina (180), Joana (159), Josefa (77), Leonor (73), Domingas (72), e Clara (64). Os masculinos: Manuel (830), José (397), António (333), Francisco (276), João (256), Domingos (256), Joaquim (177), Pedro (149), Alexandre (72) e Luciano (60).

Mas os nomes foram evoluindo como as modas. Se no século XVI o mais vulgar era chamar às raparigas Maria ou Isabel e, aos rapazes, Manuel ou António, também se usavam nomes como Gaspar, Lopo, Martim, Águeda, Brites, Bento, Mécia, Antão, Pascoal, Valeriana ou Simoa. Foi preciso esperar, pelo século XVII, para aparecerem as primeiras crianças de nome José, João, Joaquim, Joana, Clara ou Antónia e, pelo XVIII, para as de nome Joaquina, Josefa, Alexandre, Bernardo, Vitória ou Luísa. No século XIX, surgiram, pela primeira vez, os nomes Luciano, Hermínia, Carolina, Duarte, Cândida e Dâmaso.

No período 1812-1905, do qual já se podem retirar conclusões válidas, salienta-se um primeiro aspecto que pode ser abordado com certeza. A terrível mortalidade infantil que, à semelhança do que acontecia em todo o país, flagelou a Póvoa, até há muito poucos anos.

Refira-se, para enquadrar o problema ao nível do país, que a situação ainda no fim deste período, não era muito mais favorável, bastando recordar o afirmado no Parlamento, a 3 de Junho de 1908, pelo então deputado António José de Almeida, futuro Presidente da República: “Em cada 1.000 sepulturas abertas, em 1904, nos cemitérios de Lisboa, 326 foram para crianças e é sabido que a quinta parte dos portugueses que morrem por ano são crianças nos primeiros 12 meses de vida (...)”.

Na Póvoa, neste período, em média e por ano, registou-se o nascimento de cerca de 30 crianças e cerca de 15 óbitos. Destes, cerca de 62% foram de crianças até aos 10 anos de idade e cerca de 44% até aos 2 anos.

Dos 95 anos analisados, em 68, a mortalidade de crianças até 10 anos representou 50% ou mais dos óbitos verificados, salientando-se, a título de exemplo, os anos de 1818 (7 crianças em 7 óbitos), 1819 (11 em 12), 1820 (18 em 22), 1861 (5 crianças em 5 óbitos), 1875 (32 em 37), 1879 (13 em 14), 1881 (21 em 24), 1882 (18 em 22 ) e 1904 (18 em 22).

Ao nível dos casais que mais terão sofrido o impacto desta mortalidade infantil tão exagerada, salientem-se, entre tantos outros, os seguintes:

• Manuel Alexandre e Joana Duarte Beirão, casados em 1805, a quem faleceram 14 filhos, todos em tenra idade;

• Manuel Pinto Barata e Clara da Silva, casados em 1872, tendo falecido 10 dos seus 14 filhos, até aos quatro anos de idade;

• Dionísio dos Santos Saraiva e Inês Rosa, casados em 1813, que em idênticas circunstâncias perderam 10 de 13 filhos;

• Manuel Magro e Joaquina dos Passos, casados em 1874, que perderam todos os 8 filhos, falecendo a mãe aquando do parto do último;

• António José Mendes e Josefa Vaz que, entre 24/10/1808 e 21/12 do mesmo ano, perderam 4 filhos.

Vítor Carvalho, Luís Duque Vieira, Lourval Silva

* Quaisquer dados referentes a pessoas nascidas na Póvoa após 1905 poderão ser enviados, por mail para vmpcar [arroba] gmail.com ou lourval [arroba] hotmail.com, ou ser entregues pessoalmente aos signatários na Póvoa de Rio de Moinhos

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=222&id=19664&idSeccao=2396&Action=noticia

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Tradição saiu à rua

Canto das Janeiras é uma tradição revivida durante o mês de Janeiro das terras da Beira. A Freguesia de Póvoa de Rio de Moinhos não fugiu à regra e reavivou esta tradição.

Um grupo de pessoas da Freguesia organizou-se e cantou as tradicionais “Janeiras” pelas ruas da aldeia, algo que já há alguns anos não acontecia. As verbas recolhidas, num total de 2.151,30 euros, foram entregues à direcção do Centro Social dos Beneméritos de Póvoa de Rio de Moinhos, responsável pela construção do Lar, uma obra que já teve início.

A actividade revelou-se bem sucedida, quer para a população em geral, quer para as pessoas que directamente participaram., pelo que, o “Grupo de Cantares” vai ter continuidade, com outros cantares tradicionais da Freguesia, com o objectivo de recriar tradições que entretanto desapareceram.

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=218&id=19127&idSeccao=2346&Action=noticia

Sensibilização nas escolas

O Núcleo Escola Segura da GNR de Castelo Branco realizou uma acção de sensibilização sobre “Bulling na Escola”, na EB 2/3 e Secundária de Alcains, onde estiveram presentes dois militares, 17 alunos e dois docentes.

Já o NES da GNR de Idanha-a-Nova realizou acções de sensibilização sobre “Bombas de Carnaval e Internet”, na EB 2/3 José Silvestre Ribeiro de Idanha-a-Nova, onde estiveram presentes quatro militares, 132 alunos e oito docentes.

O NES da GNR de Castelo Branco realizou ainda uma acção de sensibilização sobre “Segurança Rodoviária”, na EB 1 de Póvoa de Rio de Moinhos, onde esteve um militar, 21 alunos e dois docentes.

Fonte:http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=215&id=18694&idSeccao=2302&Action=noticia

PR: Recuperação económica não se fará apenas com "grandes projectos" ou "grandes empresas" - Cavaco Silva

Póvoa de Rio de Moinhos, Castelo Branco, 05 fev (Lusa) - O Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu hoje que a recuperação económica do país não depende essencialmente "dos grandes projetos" ou das "grandes empresas", mas das iniciativas empresariais de menos escala e das "comunidades locais".

Lusa - Esta notícia foi escrita nos termos do Acordo Ortográfico
14:50 Sexta-feira, 5 de Fev de 2010

Póvoa de Rio de Moinhos, Castelo Branco, 05 fev (Lusa) - O Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu hoje que a recuperação económica do país não depende essencialmente "dos grandes projetos" ou das "grandes empresas", mas das iniciativas empresariais de menos escala e das "comunidades locais".

"Devemos estar bem conscientes que não conseguiremos levar por diante a recuperação económica pensando apenas nos grandes projetos, na produção realizada nas grandes cidades ou pelas grandes empresas. Não podemos dispensar a actividade que se realiza nos concelhos de pequena e média dimensão, nas pequenas empresas e no mundo rural", disse, no arranque da segunda jornada do Roteiro das Comunidades Locais Inovadoras.

No final de uma manhã em que visitou duas empresas de sucesso em Castelo Branco e inaugurou um centro de apoio tecnológico agroalimentar, o Chefe de Estado manifestou-se "absolutamente convencido" que é em iniciativas deste tipo que está "o suplemento que precisamos para acelerar a recuperação económica e criar mais emprego".


Fonte: http://aeiou.visao.pt/pr-recuperacao-economica-nao-se-fara-apenas-com-grandes-projectos-ou-grandes-empresas-cavaco-silva=f546905

O Clube da terra

O futebol foi a base para a criação do Clube Desportivo de Póvoa de Rio de Moinhos, já que, desde a década de 50, se juntavam os jovens da terra para formarem uma equipa de futebol que participava em jogos contra outras terras vizinhas e, nos anos 70, era uma constante a participação da equipa da Póvoa em diversos torneios, nomeadamente na cidade de Castelo Branco.

Foi deste modo que surgiu a necessidade de legalizar a Associação que já existia. E assim, a Acta Número Um refere: “Aos quinze dias do mês de Maio de mil novecentos e setenta e seis, por convocatória da direcção interina, presidida pelo senhor João Tomé Frederico, se reuniram na sua sede em Póvoa de Rio de Moinhos, os sócios do Clube de Póvoa de Rio de Moinhos, com a seguinte ordem de trabalhos:

1.º Eleição dos membros que irão fazer parte da Assembleia Geral, Conselho Fiscal e Direcção, até ao dia trinta e um de Dezembro de Mil novecentos e setenta e sete.

2.º Eleição de dois membros da Direcção com poderes para receber doações e fazer escrituras de todos os bens comprados ou oferecidos ao Clube.”

E foi assim que, no dia 15 de Maio de 1976, teve lugar a 1.ª reunião oficial do Clube Desportivo de Póvoa de Rio de Moinhos (CDPRM).

A data da fundação do CDPRM corresponde ao dia 29 de Abril de 1976, conforme estatutos publicados em Diário da República. Nesta primeira acta ficou também decidido que o dia do Clube seria sempre comemorado no dia 29 de Abril de cada ano, se esse dia fosse Domingo, em caso contrário, passava para o Domingo a seguir. Dessa mesma reunião saiu a primeira Direcção do CDPRM:

Assembleia Geral: Presidente - Manuel Maria Alves; 1.º Secretário – Luís Alberto Franco Brás; 2.º Secretário – Tomás Ramalhoso Goulão; Suplentes - Alexandre da Cruz Pereira e Ricardo Antunes da Cruz.

Conselho Fiscal: Presidente – Amélia Eugénia Franco da Fonseca Duque Vieira; Secretário – Francisco José Navarro Castelo Branco; Relator – Fernando dos Reis Garcia; Suplentes: Francisco Freire Mateus e Rui Manuel dos Reis Domingos.

Direcção: - Presidente João Tomé Frederico; Vice-presidente - Manuel Simão Martinho; Secretário – Victor Manuel Nunes Augusto; Tesoureiro – António Alexandre Pinto Roberto; 1.º Vogal – José do Nascimento Carvalho; 2.º vogal – Aníbal da Luz Mendonça e 3.º vogal – José da Ascensão Júlio.

A 16 de Janeiro de 1977 disputou-se o primeiro jogo de futebol do CDPRM, como clube federado, ao participar no campeonato de futebol de 11, distrital sénior, da Associação de Futebol de Castelo Branco. Esse jogo realizou-se no antigo campo de jogos da terra e teve como opositor a equipa de futebol de Unhais da Serra. O resultado final do encontro foi um empate a 3 golos.

Esta participação no campeonato distrital da Associação de Futebol de Castelo Branco durou 5 épocas (1976/1977 a 1980/1981). Depois disso, o CDPRM teve outras participações em provas federadas, assim como, na época de 1994/1995, no campeonato distrital de juniores (futebol de 11). Mais recentemente, nas épocas de 2003/2004, 2004/2005, 2005/2006, 2006/2007 e 2007/2008, voltou a participar no campeonato distrital de seniores.

As participações em provas federadas podem ser consideradas dos pontos mais altos do CDPRM, no entanto, nos seus quase 34 anos de existência, o Clube Desportivo sempre tentou dinamizar a Póvoa, seja desportivamente seja recreativamente. Assim, durante a sua vida foram organizados diversos torneios: malhas, cartas, matraquilhos, futsal, etc.

Também a organização de festas populares, bailes, participação na feira anual da Freguesia, fizeram parte das actividades do Clube Desportivo de Póvoa de Rio de Moinhos. Numa das suas últimas actividades, em 2009, o CDPRM organizou o I Passeio de BTT.

Citando Vergílio Ferreira:” O importante não é o que acontece, mas o que acontece em nós desse acontecer!” É assim o Clube da Terra, da nossa Terra: o que acontece na vida do Clube não são simples e passageiros resultados ou participações desportivas, são fragmentos marcantes das nossas vidas.

É nesta atmosfera de reviver o passado e despertar para o futuro, que surge a responsabilidade de todos os que são ou foram sócios do CDPRM, e também para aqueles que o virão a ser, de continuar a escrever a História do CDPRM, não o deixando morrer no tempo, pois um Clube são os seus sócios!

João Paulo Ramos Martinho

Com este artigo, bem no tempo presente, entramos na recta final desta 1ª fase de divulgação da história da Póvoa. A próxima crónica remete-nos para o passado mais antigo. É um estudo aprofundado e que tem na sua origem documentos que já foram, aqui, apresentados anteriormente.


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=218&id=19086&idSeccao=2350&Action=noticia

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Quem o soube segurar, ganhou!

Vamos hoje recordar um período bastante conturbado, quer na Póvoa quer em muitas povoações vizinhas, de repente envolvidas na crise que precedeu a segunda guerra mundial e se arrastou até ao seu final, fazendo-se sentir sobretudo nos anos que entre as populações ficaram conhecidos para o bem e para o mal por “os anos do minério” (1939-1945).

Apesar de Portugal não ter participado directamente na guerra, o estatuto de neutralidade não obstou a que toda a vida rural sofresse as alterações resultantes da exploração do minério que através de Espanha era encaminhado para a Alemanha, e que uma economia rural não sofresse as consequências e as alterações que o conflito levou a todas as nações envolvidas e seus aliados.

Num país pouco industrializado, com largas camadas da população a viver do dia a dia dos trabalhos dos campos para manter a sua sobrevivência, esta grande mudança não podia passar despercebida. Todos lutaram para melhorar os seus haveres e alguns inebriados pelas novas oportunidades só sonharam com futuros que nunca se chegaram a concretizar.

O Governo, com receio do abandono generalizado dos trabalhos do campo, da falta e subida dos preços dos bens alimentares e da carestia geral de vida, deu instruções aos governadores civis para que proíbissem as explorações clandestinas, fonte de abandono da agricultura e origem de motins e guerras entre famílias e populações.

Interessa-nos sobretudo tentar perceber como se passaram as coisas aqui na Póvoa naquele período. A febre do volfrâmio e da sua exploração e comercialização não se fez sentir por aqui, tendo-se concentrado nas aldeias mais próximas das minas da Panasqueira. Contudo a exploração do minério de estanho foi, como acima referimos, objecto de atenção dos nossos conterrâneos.

Ouvimos alguns dos que participaram directamente na extracção do minério de estanho. Manuel André foi um dos primeiros. Toda a sua família andou na exploração do minério e de acordo com o seu testemunho podemos reconstruir o ambiente que então se viveu.

Quando começaram, foram orientados por uns homens de Medelim que vinham no princípio da semana e no final da semana regressavam levando consigo o produto da exploração, voltando na semana seguinte.

Isto passava-se na Lameira do Salgueiro, junto ao lugar que mais tarde veio a ser conhecido por Marateca. Os processos de exploração eram simples: a areia recolhida dos ribeiros e regatos e das escavações em terrenos de aluvião era recolhida e lavada. As bagas de estanho escuras e mais pesadas depositavam-se no fundo das bacias utilizadas e eram recolhidas. Mais tarde, para a extracção ser mais fácil e rápida, utilizavam-se “caleiras” de madeira para movimentar as terras e as águas. Tudo se passava a céu aberto, removendo terras e areias.

Após o ciclo dos homens de Medelim, constituíram-se sociedades que exploravam e compravam todo o minério. Existem ainda, junto à estrada nacional Castelo Branco - Guarda, as ruínas das instalações de uma dessas Companhias: a SMEL, Sociedade Mineira da Lardosa, constituída por interesses portugueses e alemães.

Os locais mais explorados foram: a Lameira do Salgueiro, os Barrinhos, a Tapada do Amaro, e outros, todos próximos da ribeira da Ocreza.

O minério era vendido às sociedades existentes à data mas também era desviado para o “contrabando” ou “candonga”, como então se dizia.

Diz o Manuel André que, ao princípio, o minério era comprado a oito escudos o quilo, mas na “candonga”, chegava a atingir os oitenta e cinco escudos.

Refere ainda o nosso interlocutor que os proprietários dos terrenos dividiam-nos em lotes que eram arrematados por grupos, famílias, e a seguir explorados pelos arrematantes.

Os grupos começaram por ser da Póvoa, mas rapidamente se estenderam às aldeias vizinhas: Tinalhas, Alcains, Lardosa, etc.

Todo este ambiente trouxe profundas alterações na nossa região: rixas, guerras entre povoações e levou ao abandono da agricultura.

Com o final da guerra, a exploração deixou de ter interesse económico e como prosaicamente diz o Manuel André, “quem o soube segurar, ganhou; quem não soube, voltou à pobreza do antigamente”.

O minério e a sua comercialização deram origem a uma profissão que aqui pela Póvoa não era conhecida: o contrabandista. Até à exploração do minério e à sua comercialização e consequente contrabando, havia só um homem na Póvoa que exercia esta profissão e que era conhecido por “Chico Vigário”, de alcunha. Dedicava-se ao contrabando entre Portugal e Espanha e vivia desta ocupação. Com o aparecimento do minério, também ele reorientou a sua actividade nesta direcção.

Como acima referimos, passados estes tempos difíceis da guerra, a vida retomou a sua rotina e os seus passos.

José Antunes Leitão

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=212&id=18277&idSeccao=2261&Action=noticia

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Lar da Póvoa pronto em quinze meses

Póvoa de Rio de Moinhos vai ter o seu lar concluído em meados de 2011. A garantia foi deixada pelo presidente da Câmara, na cerimónia de lançamento da primeira pedra da instituição.


Por: Cristina Mota Saraiva

23 de Dezembro de 2009 às 14:29h
A freguesia de Póvoa de Rio de Moinhos vai ter o seu Lar de Terceira Idade concluído dentro de 15 meses.

O dia 20 de Dezembro fica na história da localidade, como o dia do lançamento da primeira pedra do empreendimento, que contou com a presença do Bispo da Diocese e do presidente da Câmara de Castelo Branco.

Uma obra orçada em 750 mil euros e que dá resposta a uma estratégia estabelecida pela Câmara em criar estruturas sociais espalhadas pelo concelho. Os exemplos aí estão com as obras para as novas estruturas da APPACDM e para a Associação da Criança. Será criado, também, um Lar em Tinalhas.

Obra feitas em conjunto com outras instituições, nomeadamente a Segurança Social e as fábricas da Igreja, embora seja a autarquia a liderar os processos.

Mas, no caso do Lar da Terceira Idade de Póvoa de Rio de Moinhos a história vem de mais longe e é possível construir agora o Lar, graças ao Padre António Campos, como destacou a presidente da Junta, Lucinda Martins.

Em 1943 o padre fez um testamento com instruções precisas para que, quando morresse, fosse instalado um Asilo na sua casa.

“O Asilo Padre Campos como foi chamado iniciou as suas funções no ano de 1944 e manteve-se em funcionamento até ao ano de 1978. Este Asilo, à época, era sustentado economicamente pelo rendimento da quinta anexa à residência, também ela doada ao povo desta terra”, conta a autarca.

O asilo tornou-se uma mais-valia para a freguesia, uma vez que alargou as respostas sociais.

Só que no início dos anos 70, a instituição já não era sustentável, revela, ainda Lucinda Martins, e é por essa altura que aparece o Centro de Dia Social e Paroquial Padre Campos, com a preciosa intervenção de António Jorge.

Foi inaugurado em 1982 “e que tem desempenhado as respostas sociais para as quais foi criado, centro de dia, sob a direcção dos párocos desta freguesia”, adianta a presidente da Junta. Só que eram fundamentais respostas mais abrangentes, sobretudo um Centro de Noite. Isto porque, na localidade, há 211 pessoas, com mais de 65 anos, e dezoito delas estão em lares próximos, ou mesmo fora do concelho.

“Assim, e após várias diligências ao longo destes últimos quatro anos, foi finalmente possível criar a actual Associação, Centro Social dos Beneméritos de Póvoa de Rio de Moinhos. E só é possível estarmos aqui hoje a lançar esta 1.ª pedra graças à boa vontade e ajuda do Sr. Bispo da Diocese, D. Antonino, a quem este povo será eternamente grato por toda a sua generosidade”, frisa Lucinda Martins.

A presidente realçou, igualmente, a ajuda e empenho do presidente da Câmara, Joaquim Morão que, por seu lado, destacou que esta obra é feita com qualidade e já a pensar no futuro. Agora, para o autarca é necessário que “depois de construído o ponham a funcionar”, disse.

E acrescentou que a cerimónia marcava um grande passo “porque estamos a lançar a pedra do futuro para resolver os problemas”.

O Lar vai contar com 14 quartos, sete duplos e sete individuais, e 21 camas. No entanto, cinco dos individuais estão preparados para se transformarem em duplos, caso seja necessário.

Este foi um dia de grande festa para a freguesia. E depois do lançamento da primeira pedra do Lar, decorreu a Festa de Natal, que a Junta oferece à população. Um final de tarde animado e onde foram entregues presentes a 69 crianças.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Infantário recebe mil euros de livros

Póvoa de Rio de Moinhos vence “Pilhas de Livros” do Modelo

O jardim-de-infância de Póvoa de Rio de Moinhos foi um dos estabelecimentos premiado no âmbito da campanha “Pilhas de Livros”, um prémio que recebeu quinta-feira, dia 10 de Dezembro, no Modelo de Castelo Branco.

A educadora, que se fez acompanhar de duas crianças do infantário, reconheceu que esta “é uma excelente prenda de Natal, para reforçar a biblioteca escolar”.

Já Nuno Chaves, responsável do Modelo de Castelo Branco, reitera a importância desta iniciativa e a responsabilidade social da empresa que lhe está associada.

Foram mil euros em livros, todos do Plano Nacional de Leitura, que foram entregues a esta escola.

O Modelo, recorde-se, está a entregar um total de 120 mil euros em livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura do Ministério da Educação, num total de mais de 12.500 livros às escolas vencedoras do projecto Pilhas de Livros a nível nacional.

Este ano, a iniciativa contou com a participação de mais de cerca de 256 mil crianças, do pré-escolar ao 3º ciclo, que foram responsáveis pela recolha de três milhões de pilhas.

O objectivo do Projecto Pilhas de Livros é o de fomentar os hábitos de leitura dos mais novos, num programa associado à sensibilização de todos para a necessidade de reciclar as pilhas usadas.

“Ao mesmo tempo que enriquece as bibliotecas escolares, o Modelo está também a ajudar a que tenhamos um ambiente melhor”, conclui.


Fonte:http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=210&id=17949&idSeccao=2234&Action=noticia

Cala-te que podemos ir presos!

Quando, nos inícios dos anos 60, Benvinda Matos Pinto partiu para França, deixou para trás uma vida sem horizontes mas perdeu a vivência das muitas tradições que anualmente revigoravam e davam sentido ao viver colectivo da Póvoa.

Faz parte da dura faina do campo, a existência de alguns períodos de distracção para recuperar forças e esquecer as agruras da vida. Sempre assim foi ao longo dos tempos e assim continuará a ser.

Na Póvoa, desde tempos imemoriais que existem algumas festas religiosas normalmente seguidas das respectivas festas populares.

A ligação das festas religiosas aos divertimentos profanos nem sempre foi pacífica. Tempos houve em que a celebração religiosa era perfeitamente integrada nos divertimentos populares. Com o evoluir dos tempos, as autoridades religiosas começaram a separar uma coisa da outra e esta separação deu origem a muitas confusões e desentendimentos. Esses tempos passaram e hoje, podemos dizer que as festas já não são o que eram, apesar de continuarem a realizar-se.

A festa principal foi sempre a da Senhora da Encarnação. Tinha e tem lugar na Páscoa. Começava com as Alvíssaras. As pessoas deslocavam-se de madrugada à capela para cumprimentar a Senhora pela ressurreição do Filho. Havia missa, sermão e procissão à volta da capela. De tarde comiam-se as merendas debaixo dos sobreiros e a música tocava. À tarde regressava-se à povoação e o rancho era lindo de ver: as mulheres antigas tocavam o adufe, o povo cantava e o arraial dava continuidade, pela noite dentro, às diversões populares.

O mesmo ambiente festivo envolvia a romaria de Santa Águeda cuja capela primitiva foi alagada pela barragem.

No Natal era imprescindível o madeiro aceso, em frente à Igreja Matriz. Da organização do madeiro encarregavam-se os rapazes solteiros recolhendo e transportando alguns troncos fortes de sobreiro velho que os mais abastados ofereciam. As crianças também participavam: recolhiam as silvas das vedações velhas das hortas para atear a fogueira. Esta ardia por largos dias e noites, até se consumir toda a lenha.

No Verão também havia festa, a 15 de Agosto. A Senhora da Encarnação vinha à povoação trazida pelos homens no seu andor. Havia missa, procissão e à noite arraial. Ao princípio, na Praça e mais tarde no largo da Deveza. Esta festa congregou, durante os picos altos da emigração, todos os emigrantes de férias, contribuindo assim para os re-ligar aos seus lugares e famílias de origem.

Escusado será dizer que no Carnaval também havia alguns divertimentos. Castigavam-se com censura pública algumas figuras que sobressaíam no povo pelos pecados mais comuns: uma velhota ou velhote que bebiam uns copitos a mais ou um ou outro caso de suspeitas de amores fora das normas.

Alguém reunia a criançada, cada um com seu chocalho e eram as célebres “chocalhadas” públicas às portas do criticado.

Às vezes apareciam uns pequenos grupos de saltimbancos vindos não se sabe de onde, com o intuito de recolher uns tostões ou qualquer coisa que matasse a fome. Com uma caixa de música, uma corneta, um cantor e um habilidoso, improvisava-se um espectáculo. As quadras cantadas eram quadras populares e, por vezes, o sarcasmo e a ironia faziam a sua graça. Lembro-me de ter ouvido, um dia, os saltimbancos cantarem:

Santa Comba por destino/ Fica mesmo em Portugal/ Á beira da Oliveira/ Oliveira do Hospital.

Oliveira do Hospital/ Que os doentes não ilude/ Que afinal é Oliveira/ Que nos trata da saúde.

Eu era uma criança e lembro-me de ter ido para casa contar à minha mãe o que ouvira dos palhaços. Logo ela me disse:

-Cala-te que isso é contra o Governo e podemos ir presos.

Como se vê a ironia era fina.

Da saúde ninguém tratava e as epidemias de febre tifóide e outras, rondavam frequentemente as famílias. Tratar da saúde tinha um segundo sentido, como facilmente se pode imaginar.

Na próxima crónica daremos uma ideia do que foi, poucos anos antes de começar a atracção pela Europa, o sonho de vida melhor experimentado com a exploração do minério durante a Guerra.

José Antunes Leitão


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=210&id=17980&idSeccao=2233&Action=noticia

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Em Janeiro de 1963 emigrei para França

A narrativa que hoje apresento retrata, em breves palavras, momentos importantes da vida de uma nossa conterrânea. Estou certa de que alguns dos senhores leitores, em particular os desta geração, reconhecerão na história da Dona Benvinda Matos Pinto talvez a sua própria história. Ela, que na aldeia foi pioneira na aventura de construir uma vida lá fora, mais propriamente em França, iniciou um novo ciclo de emigração dos habitantes desta terra.

Decorriam os anos sessenta. A lida da maioria dos homens e das mulheres ainda se fazia no campo, no entanto para além das costureiras, ferreiros, merceeiros, sapateiros, pastores e demais ofícios, alguns, na verdade poucos, conseguiram empregar-se na cidade ou na vila de Alcains. Precisamente aí laborava a Dona Benvinda, na leitaria dessa localidade, onde auferia, como salário semanal, a quantia de noventa e sete escudos.

Foi neste local que conheceu um engenheiro casado com uma senhora de origem francesa. Esta ‘Madame’ viria a convidar a nossa protagonista de hoje, para servir na sua casa e cuidar dos seus filhos, em França. Assim, em Janeiro de 1963, contrariando a vontade de sua mãe, Dona Benvinda rumou a Paris. A viagem fez-se de comboio. Na mala seguiam alguma ansiedade, muitas expectativas e, também, um passaporte de turista. Tempos depois, por intermédio dos seus patrões, tornou-se uma cidadã legal naquele país. Passados cerca de dois anos, conheceu aquele que viria a ser o seu marido pelo que, após o matrimónio, alugou uma pequena casa numa localidade próxima da capital francesa.

Apesar dos enormes obstáculos da língua, da difícil adaptação ao estilo de vida daquelas gentes e do afastamento da família, reconhece agora, ter sido uma afortunada, uma abençoada, por facilidades que minimizaram alguns sofrimentos.

A mesma sorte, porém, não coube a muitos homens e mulheres que, nos anos seguintes, tentaram alcançar as fronteiras desse país onde a vida era, naquele tempo, bem melhor. Nessa década, seguiram para França várias dezenas de pessoas da nossa aldeia, calcula-se que mais de cinquenta. Alguns iam com carta de chamada, sabiam portanto que a viagem se faria sem medos e que uma vez chegados ao seu destino, teriam abrigo, trabalho e alguém que os orientasse. No entanto, muitos outros incorreram em perigos enormes para finalmente alcançarem o El Dorado tão desejado. Quantos homens e mulheres se aventuraram pelas densas serras onde foram guiados por passadores! Estes passadores ou contrabandistas geriam, então, um negócio lucrativo. Por seis, sete e oito contos de réis, acompanhavam os aventureiros até à fronteira do país vizinho, onde homónimos espanhóis os esperavam, se lhes cabia a sorte de combinarem o trato com um passador sério. Já os passadores desonestos, após receberem o combinado, é bom de ver, abandonavam os coitados nas serras entregues à sua própria sorte, vagueando perdidos durante semanas e semanas, correndo, entre outros riscos, o de serem descobertos por guardas portugueses ou espanhóis que por vezes os espancavam sem dó nem piedade. Quem recorda esta experiência diz ser impossível esquecer a noite em que cruzaram a fronteira. Relatam episódios de longas caminhadas, boleias de camionistas ou de compadecidos condutores de carrinhas de caixa aberta, onde lhes era permitido viajar escondidos por entre a mercadoria.

Mas, como é sabido, a sorte protege os audazes e, felizmente, por lá vingaram todos os que procuraram esse destino. Os anos foram passando e os emigrantes trouxeram as novidades de além fronteiras. Estas espelharam-se nas roupas, nos carros e até nas casas que construíram. Os franceses, como passaram a ser chamados, enchiam de cor e animação os meses quentes que aproveitavam para matar saudades da família.

O mesmo sucedeu com a Dona Benvinda, que durante mais de quarenta anos voltou à sua aldeia natal. Regressou definitivamente em 2002, deixando em Maison Laffitte, dois filhos e uma casa própria da qual desfruta por alguns meses, sempre que a vontade lhe pede.

As vivências passadas naquele país permanecerão, para sempre na sua pessoa. O balanço é positivo. Valeu e muito a pena ter emigrado.

Célia Freire da Cruz

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=208&id=17737&idSeccao=2207&Action=noticia

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Uma família da Póvoa de Rio de Moinhos em Santos (Brasil)

Deixar a Póvoa diminuiu nosso tempo de vida

Meus bisavós José dos Santos Silva e Maria Rita, naturais da Póvoa de Rio de Moinhos, imigraram para o Brasil e desembarcaram na cidade portuária de Santos, no Estado de São Paulo, em 07.10.1912. José foi trabalhador portuário na Cia. Docas de Santos, enquanto Maria Rita ocupava-se dos serviços domésticos de seu lar. Consigo trouxeram Abrahão, também natural da Póvoa de Rio de Moinhos, nascido em 08.12.1911. Abrahão era o meu avô paterno.

José, Maria Rita e Abrahão não vieram sós. Vieram com eles alguns primos e alguns anos mais tarde vieram José Martins e Maria Joaquina (irmã da Maria Rita). José Martins era primo em primeiro grau de Maria Joaquina, mas acabaram por se casar em Santos. José Martins, como seu primo José dos Santos Silva, foi trabalhador portuário.

Meus bisavós tiveram mais quatro filhos aqui no Brasil: Maria Rosa, Ermínia, Felícia e Ernesto. Com exceção de Ernesto, os outros nomes são típicos da Póvoa. Ernesto parece-me já uma influência bem paulista.

Meu avô Abrahão participou da Guerra Paulista de 1932 como soldado voluntário e mais tarde tornou-se também um trabalhador portuário.

Os membros da primeira geração de minha família da Póvoa trabalharam duro no cais do porto. A segunda geração foi mais bem preparada e a maioria ocupou-se de serviços administrativos. Meu pai era técnico em contabilidade. Os descendentes da terceira e quarta gerações estudaram ainda mais. Hoje há professores, advogados, engenheiros e cientistas.

Abrahão, como todo mundo, tem 16 trisavós: nove são naturais da Póvoa, três de Alcains, dois de Escalos de Baixo, um de Castelo Branco e um da Lardosa. Conheço cerca de 1360 antepassados de meu avô Abrahão, ao longo de 17 gerações. Entre os que nasceram no Concelho de Castelo Branco, a maioria nasceu na Póvoa: 36,4 por cento.

Pelo lado de seu pai, Abrahão descende dos Costas Riscados e dos Goulões de Alcains. Também descende dos Francos, dos Folgados e dos Benesperas, entre outras famílias da Póvoa. Pelo lado de sua mãe, descende dos Pratas e dos Saraivas, da Póvoa.

A Póvoa de Rio de Moinhos é uma aldeia. Basta que uma família tenha vivido na Póvoa por algumas gerações e ela terá profundas ligações familiares com todas as outras famílias. Isto significa que temos dezenas de antepassados em comum. Com exceções, é claro, todos lá são parentes.

Finalizo com uma curiosidade. Meu bisavô José dos Santos Silva deixou na Póvoa de Rio de Moinhos uma irmã: Maria Augusta Folgado. Meu bisavô teve cinco filhos enquanto que Maria Augusta Folgado teve oito. O tempo médio de vida dos filhos de José aqui no Brasil foi algo em torno de 70 anos ao passo que o tempo médio de vida dos filhos da Maria Augusta é de 90 ou mais anos. Não há aqui no Brasil nenhum filho de José ainda vivo. A maioria dos filhos da Maria Augusta ainda vive. Meu avô Abrahão nasceu em 1911. Sua prima em primeiro grau, Dona Isabel Folgado, nascida em 1912 está viva e muito bem, graças a Deus. Creio que deixar a Póvoa diminuiu nosso tempo de vida!

Lourval dos Santos Silva

Fonte:http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=206&id=17408&idSeccao=2181&Action=noticia

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Josephine Addison: a "nossa" imigrante

Conhecida por todos os habitantes da nossa terra e carinhosamente apelidada de ‘Inglesa’, o artigo de hoje é-lhe inteiramente dedicado, a ela, que adoptou a nossa pátria como sua, aqui fazendo vida, há mais de dez anos.

Cumprindo o ritual de homenagear os que daqui foram e os que aqui chegaram, vamos conhecer Josephine Mary Addison, a ‘Inglesa’, que muito nos surpreendeu. Agora é, pois, a sua vez.

Nasceu em Inglaterra, em 1928, no condado de Yorkshire, uma provícia no norte de Inglaterra. Iniciou a sua vida laboral, com apenas 16 anos, como desenhadora, num escritório de Engenharia. Apaixonada pelos números, licenciou-se em Matemática, mas não quis, nessa altura, seguir a via do ensino.

Em 1955, alistou-se no exército, tornando-se uma das primeiras mulheres a fazê-lo, em Inglaterra. Esteve ao serviço, na unidade de Engenharia Electromecânica, durante três anos.

Seguiu-se um período de dois anos, em Gibraltar, local onde trabalhou, num escritório, e viveu uma vida social intensa, facto que a encantava, mas era insuficiente para se realizar profissionalmente.

Voltou, então, para Inglaterra onde, em Londres, num colégio privado, com grande diversidade cultural, leccionou Engenharia Mecânica pela primeira vez. Certo dia, é abordada por um aluno chinês que lhe sugere que se candidate a um lugar de professora, num Instituto Politécnico de Singapura. Este foi um dos sonhos que Josephine iria, em breve, concretizar, pois tinha fascínio pela cultura oriental.

Singapura, onde leccionou por um período de três anos e meio, permitiu-lhe aventurar-se à descoberta de vários países, como a Tailândia, Hong Kong, Sri Lanka, Bornéu, Afeganistão, Paquistão, India, entre outros. Conheceu e atravesssou cada país em transportes públicos, o que lhe possibilitou um contacto muito próximo com as pessoas e, consequentemente, com a cultura que elas representam.

Em 1965 regressa a Inglaterra por meia dúzia de anos. Volta ao ensino, em Londres e na Escócia, tira o curso de Engenharia Civil e trabalha durante um ano numa Câmara Municipal.

Uma vez mais o Médio Oriente atrai Josephine, que viaja, para Hong Kong, onde lecciona até aos 60 anos, altura em que legalmente se deveria aposentar, perspectiva que não agradava à nossa protagonista de hoje.

Inicia imediatamente uma busca de emprego nos jornais e encontra, aquele que seria o último emprego da sua vida laboral: professora, na Universidade de Macau, durante dez anos.

Em 1992 decide visitar o nosso país. Portugal já lhe tinha despertado antes algum interesse especialmente por considerar que aqui poderia adquirir uma habitação própria mais facilmente do que na sua terra natal. Em Faro, aluga um carro e vai caminhando rumo a Norte até chegar a Castelo Branco, numa certa noite de Setembro.

No dia seguinte, descobre, numa imobiliária, aquela que seria a sua residência actual, uma casa na nossa aldeia, lugar onde poderia viver a sua vida, tendo por companhia os seus fiéis amigos. Abandona definitivamente Macau em 1998 e desde então, Josephine vive, na Póvoa de Rio de Moinhos, com os seus cães, que trata e estima de uma forma admirável.

Do nosso país, aprecia o clima, os bons vinhos, que cá se produzem, a simpatia e a simplicidade das pessoas. Confessa que a barreira da língua nem sempre foi um aspecto fácil de ultrapassar, contudo, frequentou aulas de língua portuguesa e, passados mais de dez anos, domina, curiosamente melhor a escrita que a oralidade.

Os seus dias são repartidos entre as lides domésticas e os longos passeios, com os seus cães, ritual que cumpre diariamente. Lamenta o facto de ter sentido de perto a falta de respeito e cuidado pelos animais. Com imensa tristeza e alguma revolta afirma que já perdeu treze dos seus leais amigos por envenenamento, especialmente quando o passeio acontece para a zona norte da aldeia. Ocasionalmente acontecem algumas saídas, até à cidade, e, por vezes, janta com uma amiga, que conheceu aqui, amizade esta que cultiva desde essa altura. Gosta de ler, de ouvir música e confessa-se apaixonada por jogos de computador, que usa também, para se manter ligada ao mundo e aos familiares que vivem em Inglaterra. Detesta ter que lidar com a burocracia, que lhe é imposta, quando, mesmo para resolver assuntos simples, se vê subjugada à tão típica montanha de formulários! Confessa que gostaria de ser útil à comunidade, o que não acontece tanto como desejava, por ainda persistir alguma dificuldade na oralidade, não fossem as nossas “vogais de todas as cores e feitios!”

Lamenta nunca ter exercido a sua verdadeira paixão, a Engenharia Civil, e talvez seja essa a razão pela qual acompanha de perto e reconhece as mudanças verificadas nas casas que recuperámos e construímos. Aprecia a renovação e confessa gostar de mudanças e de decoração, outro dos seus interesses manifestado, ao referir as “ lovely houses” da aldeia.

Voltou à sua Inglaterra para visitar a família que, anos mais tarde, lhe devolveu a visita na nossa terra.

Josephine Mary Addison conta hoje 80 anos. Esta senhora, de forte carisma, nunca deixou de superar as adversidades. Conheceu e viveu de perto outras culturas muito diferentes da nossa. Adaptou-se e hoje vive de forma tranquila na Póvoa de Rio de Moinhos.

Nós, que temos um considerável historial de emigração, consideramos, e muito, a ‘nossa’ imigrante de estimação.

Célia Freire da Cruz


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=204&id=17213&idSeccao=2156&Action=noticia

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A vida no tempo dos nossos avós

Já vimos como era a vida dos moleiros e dos pastores em Póvoa de Rio de Moinhos. Nesta freguesia rural, do interior, a maioria das pessoas vivia do campo e do que ele produzia.

A Póvoa está rodeada de um labirinto de quelhas, em pedra, que ladeiam caminhos que levam às hortas.Quase todas as famílias tinham uma horta onde cultivavam couves e alfaces, feijão, cebolas e batatas, religiosamente guardadas para no Inverno poderem sobreviver. Estas quelhas que levam às hortas deviam ser preservadas, mas a pouco e pouco estão a ser destruídas. No tempo da apanha da azeitona organizavam-se ‘camaradas’, conjunto de homens e mulheres que trabalhavam para as casas grandes: José da Fonseca, Martinho Dias, D.Antónia, etc.

A partir da primavera e sobretudo no tempo das colheitas, um rancho de mulheres, as ‘terceiras’, trabalhavam também para aquelas casas. Chamavam-se assim, porque recebiam um terço das colheitas (milho, feijão, etc). No verão ouviam-se os cantares nas eiras, por altura das desfolhadas do milho e do malhar do feijão.

As pequenas hortas, era preciso regá-las, por causa do calor que tudo secava. A água dos poços era tirada à picota, com um caldeiro. Quando o verão era muito sêco, até o chafariz secava e era preciso acumular a água do poço, de mergulho, ao lado da bica, para ter água para beber em casa.

Havia algumas profissões que resolviam os problemas quotidianos.

O tio Zé Lino era ferreiro e a sua forja ficava no fundo da Quelhinha do Reduto, nome que lembra qualquer lugar do antigamente onde, em caso de perigo, a população teria que recolher-se e defender-se. Na forja, eram afiadas as ferramentas da agricultura: picaretas, sachos e outros. Este homem vivia numa casa próximo da forja, que ainda hoje ostenta numa janela, uma pedra com a seguinte inscrição: “No ano de 1575 vale o pão a cruzado” . Para registar este facto, era porque o valor era alto e quem o fez, pretendia chamar a atenção dos vindouros, para a carestia da vida e a pouca comida que nem a todos chegava.

O tio António Domingos era pedreiro. Eu diria que era mais escultor que pedreiro: deixou-nos uma jóia feita por si, que é o escudo que está por cima da entrada principal da escola primária.

O barbeiro, cortava o cabelo e as barbas, mas também arrancava dentes. Dava injecções e também curava feridas ligeiras.

Quando chegava a altura das vindimas, durante o mês de Setembro, conforme os anos, era necessário preparar as vasilhas para receber o vinho. O Chapoula sempre foi uma figura emblemática da Póvoa. Era ele que preparava as dornas, os pipos e outros artefactos necessários à fabricação do vinho. Era inclinado aos copos e quando estava com eles, entrava em delírio. Como tinha sido militar em Coimbra percorria as ruas a fazer discursos que terminavam sempre assim: “General de Coimbra, ó clarim, toca a formar”. Discursava bem e quando havia procissões, lá ía ele também a fazer discursos. Um dia fez tantas ou tão poucas na procissão, que o sacristão teve de o fechar na torre da Igreja. Não reparou o sacristão que lá dentro havia uma escada das da azeitona. O Chapoula viu logo o furo: agarrou nela, pulou para a plataforma do sino, saiu para a rua pela porta da Igreja. Quando todos caminhavam devotamente na procissão, lá apareceu ele outra vez.

Sempre que se aproximava a época das vindimas, deixava de beber e resolvia a maior parte dos problemas dos seus clientes.

A roupa doméstica era lavada nas ribeiras e posta a corar ao sol, que substituia os detergentes. O sol quente de Julho e Agosto queimava, mas como me referiu um velho, “ dizem que o sol queima/ mas o sol dá linda côr/ nunca vi criar à sombra/ coisa de grande valor”. Também ele entrava na rotina do crescimento da natureza.

Além do Padre e do Professor havia também o Regedor, para manter a autoridade e a ordem. Às vezes havia a sua zaragata e uns copitos a mais não davam bom resultado. Os homens, no Domingo, jogavam “às malhas”. Duas equipas tentavam derrubar os pinos postos a alguma distância. Quem mais pontuasse, ganhava. Tudo terminava na taberna, para brindar à saúde dos que ganhavam e dos que perdiam. Havia duas ou três tabernas, lugar de encontro e troca de informaçôes sobre a vida da aldeia. Assim corria a vida no tempo dos nossos avós.

Para alguns, contudo, a vida não era fácil e para esses a solução encontrava-se na emigração.

José Antunes Leitão


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=202&id=16972&idSeccao=2129&Action=noticia

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As capelas de S. Sebastião e de Nossa Senhora da Conceição

Na ronda dos templos situados no próprio núcleo urbano e que, ao longo dos séculos, foram objecto de culto pelas gentes da Póvoa, resta-nos referir a capela de S. Sebastião e a de Nossa Senhora da Conceição.

A primeira, a de S. Sebastião, é certamente muito antiga e insere-se na devoção, de forte tradição na cristandade ocidental, dos fiéis se entregarem à protecção deste militar, santo e mártir, nas situações de maior calamidade colectiva – nas de fome, de peste ou de guerra. Como era costume, e a comprovam as palavras do padre-cura de 1758 informando que “era contígua ao povo”, a capela erguia-se como uma guarda avançada à entrada da povoação assinalando-nos, hoje, os seus limites de então. Podia qualquer outro cura dizer, em 1819, como havia uma confraria de evocação do seu nome (registada na documentação da Câmara Eclesiástica do Bispado de Castelo Branco) que administrava um foro com um rendimento de 35 réis, além de haver ainda a designação “Chão do Santo” identificativa de bens fundiários que lhe pertenciam.

Podia também algum dos párocos testemunhar que, em finais do século XIX e inícios do XX, persistia na comunidade a inegável popularidade do santo, revelada na linguagem corrente pela substituição do nome oficial de Rua de S. Sebastião por “Rua do Mártir “. Hoje, S. Sebastião, é a capela mortuária onde famílias e vizinhos se encontram para prestar as últimas homenagens aos seus e é ainda nela que se guarda a imagem que nas procissões é colocada num andor e transportada ao longo do percurso, por promessa ou simples devoção, por grupos inteiramente femininos.

A segunda, a capela privada de Nossa Senhora da Conceição, insere-se numa outra tradição também ela cara aos Portugueses. Remonta, com probabilidade, aos inícios da nacionalidade e, com certeza, à devoção a Nossa Senhora por parte do Santo Contestável Nuno de Santa Maria e seus descendentes, os duques de Bragança que, no século XVII, a proclamaram Padroeira da Nação Portuguesa. Esta nossa da Póvoa, que vem referida na obra Culto Marial da Diocese de Portalegre citada pelo Padre José do Vale Carvalheira, “Nossa Senhora na História e na Devoção do Povo Português”, remete para a definição do dogma da Imaculada Conceição pelo papa Pio IX. A proclamação, em 8 de Dezembro de 1854, despoletou um movimento devocional mariano em que se pode incluir a consagração da Capela.

Anteriormente, em 1818, o juiz desembargador Alexandre Duarte Marques Carrilho, natural de Póvoa de Rio de Moinhos e ligado por laços matrimoniais à família Silva Castel-Branco, obtivera autorização para instituir um oratório na sua casa da Rua do Santo. Esta residência foi perdendo o estatuto de casa principal da família que, entretanto, preferira a Rua do Fundo, Em meados do século, nas vésperas da ordenação de um dos filhos da casa, António Luciano da Fonseca, este recebe dos pais, entre outros bens para constituir património, parte de “umas casas na Rua do Fundo”. Em 1874, já habilitado com ordens sacras, o referido Padre António Luciano da Fonseca, pede ao vigário-geral do bispado de Castelo Branco que delegue no reverendo pároco da freguesia autorização para a benção da capela que edificou junto da casa de sua residência e dedicada à Virgem Santíssima Nossa Senhora da Conceição.

A Capela, que passou para os descendentes do seu irmão, Francisco António da Fonseca Castel-Branco, teve capelão privativo e missa dominical até meados da década de 1960 e (privilégio raro) o Santíssimo Sacramento até Fevereiro de 1969. Nela decorreram actos religiosos de grande significado não só para a família sua proprietária mas também para o conjunto das pessoas da terra. Como exemplo pode referir-se uma saída de procissão nocturna do Lausperene em direcção à Igreja Matriz. Foi, em 17 de Março de 1957, noticiada pela Reconquista que salienta a beleza do percurso enfeitado com verduras e iluminado pelas velas dos fiéis.

Benedicta Maria Duque


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=198&id=16450&idSeccao=2074&Action=noticia

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Santuário da Senhora da Encarnação

Não investiguei ainda as origens da capela da Senhora da Encarnação. Quem eventualmente conhecer outros elementos sobre ela, agradeço que me faça chegar as respectivas informações.

Hoje gostaria apenas de comentar, as referências que da dita capela constam do livro “Santuário Mariano”. História das imagens milagrosamente aparecidas, que se veneram nos bispados da Guarda, Lamego, Leiria e Portalegre.

É seu autor Frei Agostinho de Santa Maria, nascido em Estremoz, 1642. Professou na Ordem dos Agostinhos Descalços em 1664. Usou no mundo o nome de Manuel Gomes Freire e era filho de António Pereira e Catarina Gomes.

Compôs diversas obras originais, sendo o “Santuário Mariano” uma das mais conhecidas e traduziu outras do latim.

Aqui reuniu um sem fim de notícias sobre o culto de N. Senhora em Portugal, na Índia, em África, Brasil e Filipinas.

As notícias recolhidas neste livro têm muito de fantasioso mas, por outro lado, dão-nos descrições interessantes dos locais a que se referem. Assim acontece no caso da Senhora da Encarnação. Diz a certa altura: “Entre os lugares de Póvoa e Tinalhas, termo da Vila de S.Vicente da Beira, à distância de duas léguas da mesma vila, se vê o Santuário milagroso da Senhora da Encarnação, aonde todos aqueles povos concorrem, com grande devoção e frequência, a venerar uma milagrosa imagem da Mãe de Deus, que com o título deste soberano mistério, é naquela casa referenciado, pelo qual o poder divino obra muitos milagres e maravilhas”.

Acrescenta que fez todas as diligências junto do Pároco, Padre Martinho Gonçalves Torrão, para saber as origens da Imagem, sem que tal tenha acontecido.

Refere ainda que a capela tinha muitos quadros antigos, testemunhando milagres alcançados pelas pessoas que aqui acorriam.

Mais adiante acrescenta: “É esta imagem de roca e vestidos, tem cinco palmos de estatura, o meio corpo é de madeira com braços de engonço e está com as mãos levantadas mas é de grande magestade e soberania e assim infunde não só grande respeito, mas muita vocação.

A ermida, acrescenta ainda, fica situada em um alegre e delicioso lugar, cercado de vinhas e pomares. Tem ermitão que cuida dos asseio e ornato do seu altar e tem casas de romagem onde os devotos da Senhora vão a ter as suas novenas”. Termina dizendo que “são Padroeiros da Casa da Senhora da Encarnação, os moradores do lugar da Póvoa, donde dista pouco mais de dois tiros de mosquete. E eles são os que apresentam o Capelão e o Ermitão.

Festejam a Senhora da Encarnação na segunda oitava da Páscoa da Ressurreição, com missa cantada e sermão e este dia é de muito grande concurso das romagens.

Aqui temos um quadro descritivo do que foi a capela da Senhora da Encarnação e o seu ambiente no tempo de Frei Agostinho de Santa Maria.

Hoje, com o abandono dos campos e das tradições religiosas e populares que acompanhavam o mundo rural, podemos verificar como as coisas estão diferentes.

Restam-nos uma celebração religiosa por alturas da Páscoa e ainda, até há bem pouco tempo, um costume local de “dar as alvíssaras à Senhora” na madrugada da Ressurreição, uma Aleluia bem popular.

Teve esta capela alguma concorrência mais forte nos tempos em que os emigrantes espalhados pela Europa vinham passar à sua Terra Natal, as férias de Verão. Hoje, é num ambiente diferente que se realiza ainda a romagem da Páscoa, seguida da Procissão e merendas debaixo das sobreiras que rodeiam o local.

Nota: Os dados acima referidos constam do livro intitulado “Santuário Mariano” de Frei A. de Santa Maria, Tomo III, pág63-65. Editado em Lisboa em 1711, na oficina de António Pedroso Galrame.

José Antunes Leitão

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=196&id=16120&idSeccao=2047&Action=noticia

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Irmandade das Almas

Pelas informações colhidas nas Memórias Paroquiais pombalinas de 1758, referidas na peça anterior, verificámos que a Póvoa de Rio de Moinhos, nesta data, tinha duas irmandades: “uma do Senhor e outra das Almas”.

É desta última que queremos dar conta, inserindo-a na devoção às Almas do Purgatório, muito querida nesta tão antiga povoação, certamente revitalizada pela reforma tridentina.

Recorde-se que o concílio de Trento, no séc. XVI, ao definir a doutrina do Purgatório, proclamou a sua existência, acrescentando que as almas ali retidas, podem ser ajudadas pelo sufrágio dos fiéis. Deste modo, ordenou-se aos bispos conciliares que esta devoção fosse acreditada, mantida e ensinada em toda a cristandade.

Relativamente às irmandades medievais, como sabemos, era uma forma de organização para fomentar a solidariedade social. Tanto cuidavam dos vivos, como zelavam pelos defuntos. Para objecto do nosso estudo, focaremos apenas o segundo aspecto.

A relação entre os vivos e os mortos, segundo a fé dos fiéis, não termina com o falecimento das pessoas da comunidade. Estas continuam bem próximas, até quase fisicamente, dado que os cemitérios eram em redor das igrejas ou mesmo dentro delas, até ao séc. XIX.

Se a Irmandade das Almas da Póvoa já é constatada em 1758, nada sabemos ao certo da data do seu início. Mesmo a documentação hoje guardada na igreja matriz de S. Lourenço, apenas nos esclarece, acerca da sua vida, a partir de 1859, faz agora 150 anos.

Pelos dados apurados nos dois livros da Irmandade, consultados na igreja matriz, ficamos a saber que havia uma jóia de 600 réis para a adesão e uma quota anual de 50 réis.

Os Irmãos atingiam nesta altura, meados do séc. XIX, as três dezenas. No início do séc. XX, este número subiria para as seis dezenas, atingindo a quota anual, dois escudos. Este valor manteve-se praticamente inalterado até que, em 1977, foi elevado para os cinco escudos. Só que, nesta altura, o número de irmãos já era escasso, apenas três dezenas. A Irmandade foi assim perdendo fôlego, vindo mesmo a extinguir-se em finais da década de setenta. Nos últimos anos, já eram os párocos que ainda iam tentando manter os poucos Irmãos, chegando a ter de executar a cobrança das quotas.

Seja como tenha sido, a Irmandade, enquanto existiu, procurou desenvolver algumas actividades relacionadas com o sufrágio pelos Irmãos falecidos e ainda pelas Almas do Purgatório. Assim, nos primeiros Domingos do mês, a “Missa das Almas”, às oito horas da manhã, era celebrada por intenção dos Irmãos falecidos. Por altura da Quaresma, a Irmandade mandava celebrar um “Ofício” pelas almas, ficando a seu cargo as despesas do mesmo. Além das quotas do Irmãos, encontrava-se na igreja Matriz uma “Caixa das Almas”, cujo produto revertia para o mesmo fim. Com as contribuições ainda hoje aqui depositadas, se celebraram cinco missas neste ano. No fundo, trata-se de uma continuação informal das antiga Irmandade.

A Confraria das Almas da Póvoa, como era habitual, possuía a sua Bandeira, ostentada nos funerais dos Irmãos falecidos, pintada com gosto muito popular nas duas faces. Numa, encontra-se a figura de S. Miguel, com a balança e as Almas do Purgatório, rogando a seus pés. Na outra, uma Pietá. Cristo morto, envolvido no regaço de Maria. Depois de recuperada e restaurada pelo actual pároco, padre José Varão, esta bandeira encontra-se hoje emoldurada nas paredes laterais do interior da Matriz.

A Irmandade zelava ainda pelo Nicho das Almas que se encontra na estrada principal, na entrada da povoação, a seguir à ponte do rio. Trata-se de um belo oratório em granito, incrustado num muro, ostentando por cima uma rendilhada cruz de ferro forjado. No interior do nicho, um azulejo policromado de Nossa Senhora do Carmo, com túnica castanha e manto amarelo. O Menino está vestido de rosa e ostenta, com Nossa Senhora, um escapulário.

Outra iniciativa quaresmal, desenvolvida pela Irmandade das Almas, consiste no cantar da Encomendação das Almas, ao longo da quadra quaresmal.

Segundo a tradição, este ritual inicia-se na primeira sexta-feira da Quaresma e canta-se no mesmo dia da semana, até à Sexta - Feira Santa.

Esta iniciativa ainda hoje é mantida, graças à participação de um grupo de senhoras, formado por Maria Carolina Barata, 1ª voz, acompanhada por Virgínia Freire Pinto, as irmãs Maria dos Anjos e Amélia Martinho e ainda Maria de Fátima Barata Duarte e Emília Marques. Este ritual inicia-se às onze horas da noite, junto ao cruzeiro da igreja, percorrendo de seguida alguns lugares mais altos da freguesia, como o Largo da Praça, a rua da Fonte, a rua das Escadas do Outeiro...

Este cântico começa pela seguinte súplica:

“Eu vos peço, oh Irmãos meus/ Um Pai Nosso e uma Avé - Maria/ Pelas Almas do Purgatório/Pelo Divino amor de Deus”.

Esta Encomendação, a caixa das almas da igreja e as missas celebradas por intenção das mesmas, prolongam ainda hoje, embora de um modo informal, o essencial da Irmandade que era manter os laços de solidariedade entre os vivos e os seus entes queridos, já falecidos.

Florentino Beirão


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=194&id=15877&idSeccao=2020&Action=noticia