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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Póvoa de Rio de Moinhos em livro

O livro foi apresentado na Póvoa.

"Póvoa de Rio de Moinhos - Ontem e Hoje, História e Memória" é o título do livro coordenado por Benedicta Duque de Vieira, e que envolveu um conjunto significativo de autores, os quais contribuíram com artigos. Com edição da RVJ - Editores, esta obra é um excelente documento sobre a história daquele território, que chegou a ser concelho e que está a assinalar os 622 anos do seu foral.
O livro, editado com o apoio da Câmara de Castelo Branco que se associou a um projeto iniciado em 2006, inclui artigos também publicados no Semanário Reconquista. "Este é um excelente trabalho que fica para o futuro da nossa terra", disse na apresentação da obra a presidente da Freguesia, Lucinda Martins, a qual destacou o trabalho de "Benedicta Duque Vieira, coordenadora do projeto e de José Leitão que tanto empenho demonstrou, assim como de Cristina Mota Saraiva que foi o elo de ligação entre a Junta de Freguesia e o Jornal Reconquista e que desde a primeira hora se disponibilizou a ajudar".
Com mais de 500 páginas, o livro reúne textos e imagens, aos quais se juntam anexos bastante interessantes. "Neste livro estão milhares de horas de trabalho feito por especialistas, ou por pessoas que se tornaram especialistas", disse Benedicta Duque de Vieira, destacando o empenho de Vitor Carvalho.
A apresentação do livro decorreu no passado domingo, no auditório da Casa da Cultura da Póvoa de Rio de Moinhos, o qual esteve repleto. Benedicta Duque de Vieira anunciou que brevemente será feita uma nova apresentação da obra, mas agora em Castelo Branco. A terminar, a coordenadora do projeto, lembrou o facto da Pávoa ter sido concelho. "No fundo concelho uma vez, na alma nunca deixámos de o ser".
O evento coincidiu com a terceira edição da Feira Medieval de Castelo Branco. Um facto destacado pelo vice-presidente da Câmara, Arnaldo Brás. Sobre esta obra, o autarca referiu ser "um trabalho extraordinário, que valeu a pena. A Póvoa de Rio de Moinhos e Cafede é hoje uma freguesia exemplar. Temos belíssimas freguesias porque também temos belíssimas pessoas".
Arnaldo Brás sublinhou também o facto da apresentação ter decorrido na Casa da Cultura, num imóvel recuperado pela autarquia, lembrando que "a Câmara de Castelo Branco tem uma situação financeira estável e por isso não regateia esforços em desenvolver o concelho, o que acontece também na área cultural, tendo financiado dezenas de livros".
 
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Padre José Dias Heitor Patrão


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José Dias Heitor Patrão nasceu a 3 de Maio de 1929, em Gavião, distrito de Portalegre, banhado pelo Tejo.

(...)
Foi a seguir Pároco em Póvoa de Rio de Moinhos e Cafede (Castelo Branco), a partir de 6 de Novembro de 1953. Aí fez amizade com o Dr. Duque Vieira, que tinha sido grande amigo do Bispo D. António, sendo então professor do Liceu de Castelo Branco e fundador do jornal Reconquista.
(...)

Fonte: http://largodoscorreios.wordpress.com/2013/05/13/padre-jose-patrao-1/

Evolução da barragem de Santa Águeda ao longo dos anos - Vista de satélite


http://earthengine.google.org/#timelapse/v=39.94037,-7.50321,10,latLng&t=1.87


Fonte: http://earthengine.google.org/#timelapse/v=39.94037,-7.50321,10,latLng&t=1.87

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A última forneira

Póvoa de Rio de Moinhos, ao contrário da maioria das aldeias da região, não tinha forno comunitário. No entanto, havia vários fornos a que as mulheres recorriam para cozer o pão e fazer os bolos por alturas das festas, o da Casa Fonseca, o da Sr.ª D. Isabel e o do Sr. Francisco Vaz. O último destes fornos a funcionar para o “povo” situava-se na Rua do Forno e era propriedade da família Fonseca. As pessoas que o usavam pagavam a poia, este pagamento era feito em bolos ou pão. A última forneira, Vitória dos Ramos tratava do forno. O marido e a filha, Olívia, iam à lenha para o forno, que era essencialmente giestas e codeços, que arrancavam nos terrenos dos patrões.

Quando alguém queria cozer pão, dirigia-se a casa da forneira para buscar a massa levedada, porque na época não havia fermento. Então era ela que guardava numa tigela alguma massa levedada que era entregue à cliente, que antes de cozer o pão deixava novamente a tigela, ou malga (como se diz na Póvoa), com massa levedada para ser utilizada pela cliente seguinte.

Como era o único forno ao serviço da comunidade, no final da década de 60 princípios de 70, por altura das festas era preciso agendar o dia em que se cozia com alguma antecedência. Apesar da ti Vitória não saber ler conseguia conciliar as coisas para que ninguém ficasse prejudicado e toda a gente pudesse cozer. Por isso o forno começava a arder de manhã bem cedo e terminava pela noite dentro, iluminado por uma candeia de petróleo. Como havia muita gente a cozer ao mesmo tempo, porque o forno era grande, ela mandava colocar um pedaço de giesta ou codeço nas latas de uma das clientes, para depois de cozidos diferenciarem os bolos, o mesmo acontecendo no pão.

O forno era composto por duas divisões, uma com entrada para a rua do Forno, e que dava directamente para o forno, espaço grande, com bancadas grandes em pedra, onde se colocavam as latas com os doces, os tabuleiros de pão e onde se amassava. A outra, separada desta por uns degraus era onde se armazenava a lenha que os carros de bois descarregavam na rua da Fonte. A lenha muitas vezes chegava quase ao tecto que era bem alto, revelando o trabalho difícil da Olívia.

Apesar da ti Vitória ser apenas forneira, ensinava muitas vezes a fazer os bolos, porque a massa estava muito branda e precisava de farinha ou porque eram precisos mais ovos. Falava alto e gesticulava muito! Trabalhou até ao final da sua vida no forno, apesar da doença que a atormentava.

No final do dia, a ti Vitória dirigia-se a casa da Senhora (patroa) para lhe entregar as poias. Dividiam os produtos entre as duas, duas partes para a “Senhora” e uma para ela. Como recebiam muitos pães e bolos vendiam-nos depois a quem não cozia.

Com a emigração e as mudanças sociais novos fornos foram construídos na Póvoa. Hoje já não há a profissão de forneira. No entanto, são muitas as pessoas que cozem o pão e os bolos, nos seus próprios fornos, por isso na semana da Páscoa são várias as ruas onde cheira a bolos, uma tradição que ainda se mantém, na nossa terra.

O forno foi demolido e no seu lugar construiu-se uma habitação. Para a memória fica apenas o nome da rua, “Rua do Forno” e a lembrança dos mais velhos da Vitória dos Cotovios, a última forneira da Póvoa.

Lucinda Martins

Fonte:http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=237&id=21987&idSeccao=2597&Action=noticia

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Medicamentos naturais

A par com a Fitoterapia sempre existiram as superstições, as mezinhas e as crenças, isto é a cura da doença associada ao mito e à religião. Por volta dos anos 60 e 70 era prática corrente na Póvoa envolver o pescoço da criança com papel pardo untado com gordura de galinha aquecida para tratar a Parotidite Infecciosa, popularmente conhecida como papeira, uma doença da infância, de transmissão respiratória.

Na Póvoa para a cura do “Cobrão", no dizer das suas gentes, uma afecção cutânea, lateral ou circulante do peito ou abdómen, que em medicina, se designa por “Zona” (virose provocada por uma variante do vírus do herpes) recorria-se a uma mezinha: a afecção cutânea é benzida com azeite, em pernão (leia-se número ímpar), dizendo a seguinte reza:

“Pedro e Paulo foram a Roma Jesus Cristo encontrar, Jesus lhes disse há lá muito ezipo, muito mais haveria se não houvesse quem retalharia, eu retalho cobra, cobrão, alsepão, aranha, aranhão com azeite virgem, não junte o rabo com a cabeça, em louvor a São Silvestre, e não faz coisa que preste” e terminando com a oração do “Pai-Nosso”.

E com muitas mais mezinhas nos deparamos ainda hoje na Póvoa: sempre que alguém coze o pão a lenha tem por hábito benzer a massa ao mesmo tempo que diz: “Nosso Senhor te levede, Nosso Senhor te acrescente, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”; beber aguardente de medronho com mel quente constitui uma mezinha para constipações; água salgada morna, em gargarejos, é usada para inflamações de garganta (o acto de gargarejar assim como o calor da água estimulam a circulação de sangue local, enquanto que o sal actua como anti-séptico); um banho quente de água salgada serve para descontrair e um banho de pés em água quente, com sal, é útil em situações de problemas circulatórios e insónias.

A partir do século XX, deu-se o exponencial desenvolvimento da indústria farmacêutica, mas, e ao contrário do que se possa pensar, as plantas não foram postas de parte. Ao longo de centenas de gerações as propriedades terapêuticas das plantas foram sujeitas a uma contínua comparação e avaliação, razão pela qual não é de surpreender que a ciência moderna confirme regularmente propriedades curativas que foram descobertas há centenas de anos. Por exemplo o salgueiro-branco contém na sua casca a salicina, a substância química que levou à descoberta do ácido acetilsalicílico, (a substância activa da Aspirina), usado como analgésico, anti-pirético e anti-inflamatório. Nas sociedades industrializadas os medicamentos feitos a partir dos recursos naturais, e apresentados sob a forma de chás, ampolas, comprimidos, cápsulas, cremes e pomadas, estão a aumentar de popularidade, não como uma criação de “moda nova”, mas como o reemergir de uma prática antiga e universal.

O conhecimento do homem sobre as propriedades curativas das plantas reflecte-se numa notável evolução cultural e intelectual da civilização humana, ao nível das várias terapêuticas, sendo disso testemunha as várias gerações de Póvoa de Rio de Moinhos.

Paula Maria Ramos Martinho Figueiredo


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=234&id=21524&idSeccao=2565&Action=noticia

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Casamento, números e costumes

O último artigo publicado sobre a Póvoa de Rio de Moinhos deu conta de um projecto que está em desenvolvimento e que utiliza preferencialmente registos paroquiais*. Com os dados apurados já se apresentaram conclusões interessantes a partir das informações coligidas pelos párocos nos actos de baptismo (Luís Duque Vieira) e de óbitos (Vitor Carvalho). Hoje apresentamos uma outra variável demográfica, o casamento – o acto jurídico pelo qual se forma um novo núcleo familiar.

O arquivo distrital guarda registos paroquiais de mais de 700 casamentos celebrados na Póvoa em cerca de 130 anos, 1773-1905. No início, entre 1773 e 1800, foram realizados 132 casamentos, sendo 102 de indivíduos solteiros, 116 de solteiras, 24 de viúvos e 21 de viúvas. Por estes dados verificamos que era elevado o número de segundos casamentos o que se explica pelo suporte material que a família então representava e a necessidade de manter um círculo familiar onde se criassem os filhos que tinham ficado órfãos.

Os meses do ano mais escolhidos para casar foram aqueles em que não havia tanto trabalho agrícola a exigir o trabalho das famílias e, assim, encontramos os meses de Inverno e a Primavera como os mais preenchidos.

Um outro aspecto a salientar é o das terras de naturalidade dos noivos. Maioritariamente casaram-se com pessoas da terra ou de pequena distância. Nestes tempos mais antigos, final do século XVIII, encontramos noivos e testemunhas originários de diversas freguesias do actual concelho de Castelo Branco, alguns de outros concelhos do actual distrito e ainda dos distritos da Guarda e de Portalegre. Significa isto que as relações sociais dos habitantes da Póvoa se estabeleciam de preferência nas regiões do interior do país já que as vias de comunicação para o litoral ofereciam maiores dificuldades.

No século XIX, nas seis primeiras décadas, não se alteram significativamente os dados referentes ao casamento: os inícios do Outono e o Verão são os menos apetecíveis para as celebrações, continua elevado o número de segundas núpcias, pouco se alarga o âmbito geográfico dos nubentes e permanece a ausência de alianças com citadinos.

Depois desta data passa a haver dados relativos à idade dos noivos. Nuns e noutros, homens e mulheres, os casamentos realizaram-se maioritariamente entre indivíduos na classe de idades dos 21 aos 25 anos. A excepção é nos anos de 1860/69 em que a idade sobe para os 26-30 anos. Também neste período de quase meio século, 6 rapazes de 20 anos, menores, tiveram autorização expressa dos pais para se casarem e celebrou-se o casamento de uma rapariga com 15 anos de idade.

Igualmente passamos a dispor da indicação das profissões dos noivos e das testemunhas. Nos primeiros predominam os jornaleiros, seguidos de perto pelos criados de servir e pelos cultivadores. Moleiros e pastores são também em grande número (25 e 29 respectivamente), sendo reduzido o número de homens dos ofícios. Do lado das noivas a referência é maioritariamente “serviço doméstico”, um número pequeno de “ocupada no serviço agrícola” (11) e costureiras (7). Do lado das testemunhas, a enorme distância, surgem os proprietários (mais de 170); moleiros (mais de cinquenta) e pastores (mais de 40) dão bem a imagem da importância social atribuída a estas profissões.

A análise dos números deixa-nos algumas interrogações que no futuro tentaremos esclarecer: qual a razão da diminuição abrupta de casamentos na década de 1860 e quais as razões de um aumento significativo de matrimónios – detectados numa pesquisa direccionada para anos de instabilidade político-militar – nos anos de 1808, 1809, 1812 e 1846.

A estes elementos numéricos juntamos algumas informações sobre os costumes que acompanhavam a festa até aos anos 70 do século XX. Mantinha-se a preferência pelo casamento no Inverno e na Primavera, não havia despedida de solteiro mas era frequente o noivo oferecer uns copos de vinho aos amigos. O noivo ia buscar a noiva a casa e acompanhava-a e aos seus convidados. Quando se queria distinguir os noivos atapetava-se a rua com verdura e as raparigas levantavam à entrada da igreja arcos enfeitados com flores e cordões de ouro. A festa rija durava todo o dia consistindo as refeições em doces caseiros e pratos de cabrito e de borrego cozinhados de diversas maneiras. Terminada a boda os noivos permaneciam na aldeia gozando agora de um novo estatuto.

Luis Duque vieira

* Quaisquer dados referentes a pessoas nascidas na Póvoa após 1905 poderão ser enviados, por mail para vmpcar[arroba]gmail[ponto]com ou lourval[arroba]hotmail[ponto]com, ou ser entregues, directamente, a Luis Duque Vieira ou Vitor Carvalho na Póvoa de Rio de Moinhos.


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=224&id=19937&idSeccao=2422&Action=noticia

sexta-feira, 12 de março de 2010

Genealogia e demografia, um projecto a desenvolver

Quando está prestes a terminar a série de artigos sobre a Póvoa – Ontem e Hoje, traz-se a público um projecto que tem sido desenvolvido paralelamente por um pequeno grupo de três pessoas que, embora dispersas por Portugal e pelo Brasil, se orgulham das suas ligações familiares com a Póvoa de Rio de Moinhos. Embora exista a intenção de vir a publicar autonomamente os resultados do trabalho em curso, entende-se, apresentar, desde já e de forma sucinta, o que se fez e o que se visa.

Como já referido em artigo anterior, um dos elementos do grupo, procedeu ao levantamento sistemático dos registos paroquiais da Póvoa de Rio de Moinhos, existentes no Arquivo Distrital de Castelo Branco (cerca de 1800 registos de baptismo, 800 de casamento e 2.500 de óbito).

Agora, os outros dois elementos Iniciaram o levantamento dos registos existentes na Torre do Tombo em Lisboa, no período decorrido entre 1560 (inicio do registo) e 1771 (casamentos e óbitos) e 1844 (baptismos), pretendendo-se completar o levantamento de todos os registos existentes entre 1560 e 1905. Para o período posterior, dado que os registos não estão disponíveis, restará o recurso a fontes alternativas, ou á memória das pessoas que o viveram *.

A informação recolhida possibilitará um estudo demográfico global da Póvoa e o conhecimento profundo de como aí se viveu, ao longo dos tempos. Entre muitos outros aspectos será possível saber com que idade se casava, quantas crianças nasciam, número médio de filhos por casal, quantos anos se vivia, nomes mais usuais, etc. Outro aliciante, consiste na possibilidade de apurar a árvore genealógica de qualquer família da Póvoa, ficando-se a saber quem foram os seus antepassados, eventualmente desde o século XVI, desde que se conheçam os que nasceram após 1905.

Embora, o levantamento dos registos existentes na Torre do Tombo ainda esteja em curso, prevendo-se que leve alguns meses a completar, o que só permite retirar conclusões válidas para o período integralmente levantado (1811-1905), é possível, no entanto, proceder a um ponto de situação quanto ao trabalho já efectuado.

Nesta altura, estão referenciados como tendo, comprovadamente, nascido na Póvoa, 7.619 indivíduos, dos quais, 3.879 raparigas e 3.703 rapazes, não sendo possível apurar o sexo de 37 indivíduos falecidos à nascença ou com registo ilegível. O indivíduo mais antigo referenciado, terá nascido por volta de 1520, embora o primeiro baptismo registado tenha sido o de um António, em 17 de Dezembro de 1560.

Desde 1530, os nomes femininos mais utilizados foram: Maria (1.567), Isabel (301), Catarina (293), Ana (212), Joaquina (180), Joana (159), Josefa (77), Leonor (73), Domingas (72), e Clara (64). Os masculinos: Manuel (830), José (397), António (333), Francisco (276), João (256), Domingos (256), Joaquim (177), Pedro (149), Alexandre (72) e Luciano (60).

Mas os nomes foram evoluindo como as modas. Se no século XVI o mais vulgar era chamar às raparigas Maria ou Isabel e, aos rapazes, Manuel ou António, também se usavam nomes como Gaspar, Lopo, Martim, Águeda, Brites, Bento, Mécia, Antão, Pascoal, Valeriana ou Simoa. Foi preciso esperar, pelo século XVII, para aparecerem as primeiras crianças de nome José, João, Joaquim, Joana, Clara ou Antónia e, pelo XVIII, para as de nome Joaquina, Josefa, Alexandre, Bernardo, Vitória ou Luísa. No século XIX, surgiram, pela primeira vez, os nomes Luciano, Hermínia, Carolina, Duarte, Cândida e Dâmaso.

No período 1812-1905, do qual já se podem retirar conclusões válidas, salienta-se um primeiro aspecto que pode ser abordado com certeza. A terrível mortalidade infantil que, à semelhança do que acontecia em todo o país, flagelou a Póvoa, até há muito poucos anos.

Refira-se, para enquadrar o problema ao nível do país, que a situação ainda no fim deste período, não era muito mais favorável, bastando recordar o afirmado no Parlamento, a 3 de Junho de 1908, pelo então deputado António José de Almeida, futuro Presidente da República: “Em cada 1.000 sepulturas abertas, em 1904, nos cemitérios de Lisboa, 326 foram para crianças e é sabido que a quinta parte dos portugueses que morrem por ano são crianças nos primeiros 12 meses de vida (...)”.

Na Póvoa, neste período, em média e por ano, registou-se o nascimento de cerca de 30 crianças e cerca de 15 óbitos. Destes, cerca de 62% foram de crianças até aos 10 anos de idade e cerca de 44% até aos 2 anos.

Dos 95 anos analisados, em 68, a mortalidade de crianças até 10 anos representou 50% ou mais dos óbitos verificados, salientando-se, a título de exemplo, os anos de 1818 (7 crianças em 7 óbitos), 1819 (11 em 12), 1820 (18 em 22), 1861 (5 crianças em 5 óbitos), 1875 (32 em 37), 1879 (13 em 14), 1881 (21 em 24), 1882 (18 em 22 ) e 1904 (18 em 22).

Ao nível dos casais que mais terão sofrido o impacto desta mortalidade infantil tão exagerada, salientem-se, entre tantos outros, os seguintes:

• Manuel Alexandre e Joana Duarte Beirão, casados em 1805, a quem faleceram 14 filhos, todos em tenra idade;

• Manuel Pinto Barata e Clara da Silva, casados em 1872, tendo falecido 10 dos seus 14 filhos, até aos quatro anos de idade;

• Dionísio dos Santos Saraiva e Inês Rosa, casados em 1813, que em idênticas circunstâncias perderam 10 de 13 filhos;

• Manuel Magro e Joaquina dos Passos, casados em 1874, que perderam todos os 8 filhos, falecendo a mãe aquando do parto do último;

• António José Mendes e Josefa Vaz que, entre 24/10/1808 e 21/12 do mesmo ano, perderam 4 filhos.

Vítor Carvalho, Luís Duque Vieira, Lourval Silva

* Quaisquer dados referentes a pessoas nascidas na Póvoa após 1905 poderão ser enviados, por mail para vmpcar [arroba] gmail.com ou lourval [arroba] hotmail.com, ou ser entregues pessoalmente aos signatários na Póvoa de Rio de Moinhos

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=222&id=19664&idSeccao=2396&Action=noticia

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Quem o soube segurar, ganhou!

Vamos hoje recordar um período bastante conturbado, quer na Póvoa quer em muitas povoações vizinhas, de repente envolvidas na crise que precedeu a segunda guerra mundial e se arrastou até ao seu final, fazendo-se sentir sobretudo nos anos que entre as populações ficaram conhecidos para o bem e para o mal por “os anos do minério” (1939-1945).

Apesar de Portugal não ter participado directamente na guerra, o estatuto de neutralidade não obstou a que toda a vida rural sofresse as alterações resultantes da exploração do minério que através de Espanha era encaminhado para a Alemanha, e que uma economia rural não sofresse as consequências e as alterações que o conflito levou a todas as nações envolvidas e seus aliados.

Num país pouco industrializado, com largas camadas da população a viver do dia a dia dos trabalhos dos campos para manter a sua sobrevivência, esta grande mudança não podia passar despercebida. Todos lutaram para melhorar os seus haveres e alguns inebriados pelas novas oportunidades só sonharam com futuros que nunca se chegaram a concretizar.

O Governo, com receio do abandono generalizado dos trabalhos do campo, da falta e subida dos preços dos bens alimentares e da carestia geral de vida, deu instruções aos governadores civis para que proíbissem as explorações clandestinas, fonte de abandono da agricultura e origem de motins e guerras entre famílias e populações.

Interessa-nos sobretudo tentar perceber como se passaram as coisas aqui na Póvoa naquele período. A febre do volfrâmio e da sua exploração e comercialização não se fez sentir por aqui, tendo-se concentrado nas aldeias mais próximas das minas da Panasqueira. Contudo a exploração do minério de estanho foi, como acima referimos, objecto de atenção dos nossos conterrâneos.

Ouvimos alguns dos que participaram directamente na extracção do minério de estanho. Manuel André foi um dos primeiros. Toda a sua família andou na exploração do minério e de acordo com o seu testemunho podemos reconstruir o ambiente que então se viveu.

Quando começaram, foram orientados por uns homens de Medelim que vinham no princípio da semana e no final da semana regressavam levando consigo o produto da exploração, voltando na semana seguinte.

Isto passava-se na Lameira do Salgueiro, junto ao lugar que mais tarde veio a ser conhecido por Marateca. Os processos de exploração eram simples: a areia recolhida dos ribeiros e regatos e das escavações em terrenos de aluvião era recolhida e lavada. As bagas de estanho escuras e mais pesadas depositavam-se no fundo das bacias utilizadas e eram recolhidas. Mais tarde, para a extracção ser mais fácil e rápida, utilizavam-se “caleiras” de madeira para movimentar as terras e as águas. Tudo se passava a céu aberto, removendo terras e areias.

Após o ciclo dos homens de Medelim, constituíram-se sociedades que exploravam e compravam todo o minério. Existem ainda, junto à estrada nacional Castelo Branco - Guarda, as ruínas das instalações de uma dessas Companhias: a SMEL, Sociedade Mineira da Lardosa, constituída por interesses portugueses e alemães.

Os locais mais explorados foram: a Lameira do Salgueiro, os Barrinhos, a Tapada do Amaro, e outros, todos próximos da ribeira da Ocreza.

O minério era vendido às sociedades existentes à data mas também era desviado para o “contrabando” ou “candonga”, como então se dizia.

Diz o Manuel André que, ao princípio, o minério era comprado a oito escudos o quilo, mas na “candonga”, chegava a atingir os oitenta e cinco escudos.

Refere ainda o nosso interlocutor que os proprietários dos terrenos dividiam-nos em lotes que eram arrematados por grupos, famílias, e a seguir explorados pelos arrematantes.

Os grupos começaram por ser da Póvoa, mas rapidamente se estenderam às aldeias vizinhas: Tinalhas, Alcains, Lardosa, etc.

Todo este ambiente trouxe profundas alterações na nossa região: rixas, guerras entre povoações e levou ao abandono da agricultura.

Com o final da guerra, a exploração deixou de ter interesse económico e como prosaicamente diz o Manuel André, “quem o soube segurar, ganhou; quem não soube, voltou à pobreza do antigamente”.

O minério e a sua comercialização deram origem a uma profissão que aqui pela Póvoa não era conhecida: o contrabandista. Até à exploração do minério e à sua comercialização e consequente contrabando, havia só um homem na Póvoa que exercia esta profissão e que era conhecido por “Chico Vigário”, de alcunha. Dedicava-se ao contrabando entre Portugal e Espanha e vivia desta ocupação. Com o aparecimento do minério, também ele reorientou a sua actividade nesta direcção.

Como acima referimos, passados estes tempos difíceis da guerra, a vida retomou a sua rotina e os seus passos.

José Antunes Leitão

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=212&id=18277&idSeccao=2261&Action=noticia

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cala-te que podemos ir presos!

Quando, nos inícios dos anos 60, Benvinda Matos Pinto partiu para França, deixou para trás uma vida sem horizontes mas perdeu a vivência das muitas tradições que anualmente revigoravam e davam sentido ao viver colectivo da Póvoa.

Faz parte da dura faina do campo, a existência de alguns períodos de distracção para recuperar forças e esquecer as agruras da vida. Sempre assim foi ao longo dos tempos e assim continuará a ser.

Na Póvoa, desde tempos imemoriais que existem algumas festas religiosas normalmente seguidas das respectivas festas populares.

A ligação das festas religiosas aos divertimentos profanos nem sempre foi pacífica. Tempos houve em que a celebração religiosa era perfeitamente integrada nos divertimentos populares. Com o evoluir dos tempos, as autoridades religiosas começaram a separar uma coisa da outra e esta separação deu origem a muitas confusões e desentendimentos. Esses tempos passaram e hoje, podemos dizer que as festas já não são o que eram, apesar de continuarem a realizar-se.

A festa principal foi sempre a da Senhora da Encarnação. Tinha e tem lugar na Páscoa. Começava com as Alvíssaras. As pessoas deslocavam-se de madrugada à capela para cumprimentar a Senhora pela ressurreição do Filho. Havia missa, sermão e procissão à volta da capela. De tarde comiam-se as merendas debaixo dos sobreiros e a música tocava. À tarde regressava-se à povoação e o rancho era lindo de ver: as mulheres antigas tocavam o adufe, o povo cantava e o arraial dava continuidade, pela noite dentro, às diversões populares.

O mesmo ambiente festivo envolvia a romaria de Santa Águeda cuja capela primitiva foi alagada pela barragem.

No Natal era imprescindível o madeiro aceso, em frente à Igreja Matriz. Da organização do madeiro encarregavam-se os rapazes solteiros recolhendo e transportando alguns troncos fortes de sobreiro velho que os mais abastados ofereciam. As crianças também participavam: recolhiam as silvas das vedações velhas das hortas para atear a fogueira. Esta ardia por largos dias e noites, até se consumir toda a lenha.

No Verão também havia festa, a 15 de Agosto. A Senhora da Encarnação vinha à povoação trazida pelos homens no seu andor. Havia missa, procissão e à noite arraial. Ao princípio, na Praça e mais tarde no largo da Deveza. Esta festa congregou, durante os picos altos da emigração, todos os emigrantes de férias, contribuindo assim para os re-ligar aos seus lugares e famílias de origem.

Escusado será dizer que no Carnaval também havia alguns divertimentos. Castigavam-se com censura pública algumas figuras que sobressaíam no povo pelos pecados mais comuns: uma velhota ou velhote que bebiam uns copitos a mais ou um ou outro caso de suspeitas de amores fora das normas.

Alguém reunia a criançada, cada um com seu chocalho e eram as célebres “chocalhadas” públicas às portas do criticado.

Às vezes apareciam uns pequenos grupos de saltimbancos vindos não se sabe de onde, com o intuito de recolher uns tostões ou qualquer coisa que matasse a fome. Com uma caixa de música, uma corneta, um cantor e um habilidoso, improvisava-se um espectáculo. As quadras cantadas eram quadras populares e, por vezes, o sarcasmo e a ironia faziam a sua graça. Lembro-me de ter ouvido, um dia, os saltimbancos cantarem:

Santa Comba por destino/ Fica mesmo em Portugal/ Á beira da Oliveira/ Oliveira do Hospital.

Oliveira do Hospital/ Que os doentes não ilude/ Que afinal é Oliveira/ Que nos trata da saúde.

Eu era uma criança e lembro-me de ter ido para casa contar à minha mãe o que ouvira dos palhaços. Logo ela me disse:

-Cala-te que isso é contra o Governo e podemos ir presos.

Como se vê a ironia era fina.

Da saúde ninguém tratava e as epidemias de febre tifóide e outras, rondavam frequentemente as famílias. Tratar da saúde tinha um segundo sentido, como facilmente se pode imaginar.

Na próxima crónica daremos uma ideia do que foi, poucos anos antes de começar a atracção pela Europa, o sonho de vida melhor experimentado com a exploração do minério durante a Guerra.

José Antunes Leitão


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=210&id=17980&idSeccao=2233&Action=noticia

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Em Janeiro de 1963 emigrei para França

A narrativa que hoje apresento retrata, em breves palavras, momentos importantes da vida de uma nossa conterrânea. Estou certa de que alguns dos senhores leitores, em particular os desta geração, reconhecerão na história da Dona Benvinda Matos Pinto talvez a sua própria história. Ela, que na aldeia foi pioneira na aventura de construir uma vida lá fora, mais propriamente em França, iniciou um novo ciclo de emigração dos habitantes desta terra.

Decorriam os anos sessenta. A lida da maioria dos homens e das mulheres ainda se fazia no campo, no entanto para além das costureiras, ferreiros, merceeiros, sapateiros, pastores e demais ofícios, alguns, na verdade poucos, conseguiram empregar-se na cidade ou na vila de Alcains. Precisamente aí laborava a Dona Benvinda, na leitaria dessa localidade, onde auferia, como salário semanal, a quantia de noventa e sete escudos.

Foi neste local que conheceu um engenheiro casado com uma senhora de origem francesa. Esta ‘Madame’ viria a convidar a nossa protagonista de hoje, para servir na sua casa e cuidar dos seus filhos, em França. Assim, em Janeiro de 1963, contrariando a vontade de sua mãe, Dona Benvinda rumou a Paris. A viagem fez-se de comboio. Na mala seguiam alguma ansiedade, muitas expectativas e, também, um passaporte de turista. Tempos depois, por intermédio dos seus patrões, tornou-se uma cidadã legal naquele país. Passados cerca de dois anos, conheceu aquele que viria a ser o seu marido pelo que, após o matrimónio, alugou uma pequena casa numa localidade próxima da capital francesa.

Apesar dos enormes obstáculos da língua, da difícil adaptação ao estilo de vida daquelas gentes e do afastamento da família, reconhece agora, ter sido uma afortunada, uma abençoada, por facilidades que minimizaram alguns sofrimentos.

A mesma sorte, porém, não coube a muitos homens e mulheres que, nos anos seguintes, tentaram alcançar as fronteiras desse país onde a vida era, naquele tempo, bem melhor. Nessa década, seguiram para França várias dezenas de pessoas da nossa aldeia, calcula-se que mais de cinquenta. Alguns iam com carta de chamada, sabiam portanto que a viagem se faria sem medos e que uma vez chegados ao seu destino, teriam abrigo, trabalho e alguém que os orientasse. No entanto, muitos outros incorreram em perigos enormes para finalmente alcançarem o El Dorado tão desejado. Quantos homens e mulheres se aventuraram pelas densas serras onde foram guiados por passadores! Estes passadores ou contrabandistas geriam, então, um negócio lucrativo. Por seis, sete e oito contos de réis, acompanhavam os aventureiros até à fronteira do país vizinho, onde homónimos espanhóis os esperavam, se lhes cabia a sorte de combinarem o trato com um passador sério. Já os passadores desonestos, após receberem o combinado, é bom de ver, abandonavam os coitados nas serras entregues à sua própria sorte, vagueando perdidos durante semanas e semanas, correndo, entre outros riscos, o de serem descobertos por guardas portugueses ou espanhóis que por vezes os espancavam sem dó nem piedade. Quem recorda esta experiência diz ser impossível esquecer a noite em que cruzaram a fronteira. Relatam episódios de longas caminhadas, boleias de camionistas ou de compadecidos condutores de carrinhas de caixa aberta, onde lhes era permitido viajar escondidos por entre a mercadoria.

Mas, como é sabido, a sorte protege os audazes e, felizmente, por lá vingaram todos os que procuraram esse destino. Os anos foram passando e os emigrantes trouxeram as novidades de além fronteiras. Estas espelharam-se nas roupas, nos carros e até nas casas que construíram. Os franceses, como passaram a ser chamados, enchiam de cor e animação os meses quentes que aproveitavam para matar saudades da família.

O mesmo sucedeu com a Dona Benvinda, que durante mais de quarenta anos voltou à sua aldeia natal. Regressou definitivamente em 2002, deixando em Maison Laffitte, dois filhos e uma casa própria da qual desfruta por alguns meses, sempre que a vontade lhe pede.

As vivências passadas naquele país permanecerão, para sempre na sua pessoa. O balanço é positivo. Valeu e muito a pena ter emigrado.

Célia Freire da Cruz

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=208&id=17737&idSeccao=2207&Action=noticia

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A vida no tempo dos nossos avós

Já vimos como era a vida dos moleiros e dos pastores em Póvoa de Rio de Moinhos. Nesta freguesia rural, do interior, a maioria das pessoas vivia do campo e do que ele produzia.

A Póvoa está rodeada de um labirinto de quelhas, em pedra, que ladeiam caminhos que levam às hortas.Quase todas as famílias tinham uma horta onde cultivavam couves e alfaces, feijão, cebolas e batatas, religiosamente guardadas para no Inverno poderem sobreviver. Estas quelhas que levam às hortas deviam ser preservadas, mas a pouco e pouco estão a ser destruídas. No tempo da apanha da azeitona organizavam-se ‘camaradas’, conjunto de homens e mulheres que trabalhavam para as casas grandes: José da Fonseca, Martinho Dias, D.Antónia, etc.

A partir da primavera e sobretudo no tempo das colheitas, um rancho de mulheres, as ‘terceiras’, trabalhavam também para aquelas casas. Chamavam-se assim, porque recebiam um terço das colheitas (milho, feijão, etc). No verão ouviam-se os cantares nas eiras, por altura das desfolhadas do milho e do malhar do feijão.

As pequenas hortas, era preciso regá-las, por causa do calor que tudo secava. A água dos poços era tirada à picota, com um caldeiro. Quando o verão era muito sêco, até o chafariz secava e era preciso acumular a água do poço, de mergulho, ao lado da bica, para ter água para beber em casa.

Havia algumas profissões que resolviam os problemas quotidianos.

O tio Zé Lino era ferreiro e a sua forja ficava no fundo da Quelhinha do Reduto, nome que lembra qualquer lugar do antigamente onde, em caso de perigo, a população teria que recolher-se e defender-se. Na forja, eram afiadas as ferramentas da agricultura: picaretas, sachos e outros. Este homem vivia numa casa próximo da forja, que ainda hoje ostenta numa janela, uma pedra com a seguinte inscrição: “No ano de 1575 vale o pão a cruzado” . Para registar este facto, era porque o valor era alto e quem o fez, pretendia chamar a atenção dos vindouros, para a carestia da vida e a pouca comida que nem a todos chegava.

O tio António Domingos era pedreiro. Eu diria que era mais escultor que pedreiro: deixou-nos uma jóia feita por si, que é o escudo que está por cima da entrada principal da escola primária.

O barbeiro, cortava o cabelo e as barbas, mas também arrancava dentes. Dava injecções e também curava feridas ligeiras.

Quando chegava a altura das vindimas, durante o mês de Setembro, conforme os anos, era necessário preparar as vasilhas para receber o vinho. O Chapoula sempre foi uma figura emblemática da Póvoa. Era ele que preparava as dornas, os pipos e outros artefactos necessários à fabricação do vinho. Era inclinado aos copos e quando estava com eles, entrava em delírio. Como tinha sido militar em Coimbra percorria as ruas a fazer discursos que terminavam sempre assim: “General de Coimbra, ó clarim, toca a formar”. Discursava bem e quando havia procissões, lá ía ele também a fazer discursos. Um dia fez tantas ou tão poucas na procissão, que o sacristão teve de o fechar na torre da Igreja. Não reparou o sacristão que lá dentro havia uma escada das da azeitona. O Chapoula viu logo o furo: agarrou nela, pulou para a plataforma do sino, saiu para a rua pela porta da Igreja. Quando todos caminhavam devotamente na procissão, lá apareceu ele outra vez.

Sempre que se aproximava a época das vindimas, deixava de beber e resolvia a maior parte dos problemas dos seus clientes.

A roupa doméstica era lavada nas ribeiras e posta a corar ao sol, que substituia os detergentes. O sol quente de Julho e Agosto queimava, mas como me referiu um velho, “ dizem que o sol queima/ mas o sol dá linda côr/ nunca vi criar à sombra/ coisa de grande valor”. Também ele entrava na rotina do crescimento da natureza.

Além do Padre e do Professor havia também o Regedor, para manter a autoridade e a ordem. Às vezes havia a sua zaragata e uns copitos a mais não davam bom resultado. Os homens, no Domingo, jogavam “às malhas”. Duas equipas tentavam derrubar os pinos postos a alguma distância. Quem mais pontuasse, ganhava. Tudo terminava na taberna, para brindar à saúde dos que ganhavam e dos que perdiam. Havia duas ou três tabernas, lugar de encontro e troca de informaçôes sobre a vida da aldeia. Assim corria a vida no tempo dos nossos avós.

Para alguns, contudo, a vida não era fácil e para esses a solução encontrava-se na emigração.

José Antunes Leitão


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=202&id=16972&idSeccao=2129&Action=noticia

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A Igreja Paroquial

A Igreja da Póvoa nasceu da divisão da paróquia medieval de S. Vicente, cuja área coincidia inicialmente com a do concelho. Desconhecemos a data em que foi criada, mas sabemos seguramente ter sido antes do reinado de D. João II (1481-1495).

Em 1709, o vigário de S. Vicente registou, por escrito, os usos e costumes da Igreja Matriz de S. Vicente da Beira (1). Escreveu que, segundo uns autos de visita realizada à igreja de S. Vicente, em 1539, «Na Póvoa de Rio de Moinhos, havia um capelão posto alternativamente pelo comendador e prior, com obrigação de dizer missa aos domingos e festas e administrar os sacramentos.» O mesmo documento informa que essa situação já vinha do tempo de D. João II.

O comendador referido era o da comenda de Ordem de Avis, existente no concelho de S. Vicente da Beira desde a Idade Média e com vastas propriedades na Póvoa. O prior era o do mosteiro de S. Jorge de Coimbra.

Os produtos devidos à Igreja, que resultavam sobretudo do pagamento da dízima, eram armazenados, num lugar chamado tulha, e divididos em três partes: uma para o bispo da Guarda, outra para o comendador de Avis e a terceira para o prior de S. Jorge. Era com estes bens que o comendador e o prior pagavam o cura da Póvoa e as despesas da Igreja.

Mais tarde, extinguiu-se o priorado de S. Jorge e dos seus bens fez-se uma nova comenda, a da Ordem de Cristo, com a incumbência de satisfazer as obrigações anteriormente confiadas ao prior.

Em 1758, nas Memórias Paroquiais (2), o cura Manuel Rodrigues Malha informou que «O pároco é cura anual apresentado um ano pelo comendador e outro ano pelo vigário de São Vicente da Beira. Tem de porção trinta e sete alqueires e meio de centeio e quatro de trigo, quatro almudes de vinho, sete mil e quinhentos réis em dinheiro e a cera necessária para todo o ano.»

O comendador era o de Avis e o vigário de S. Vicente, escolhido pela Ordem de Cristo, desempenhava a função de nomear o cura, em representação desta ordem.

O Padre Manuel Rodrigues Malha também descreveu a Igreja da Póvoa, que se situava fora do povo, mas contígua a ele. O orago era São Lourenço e o templo tinha três altares: o altar-mor e dois laterais, um de Nossa Senhora do Rosário e outro do Santo Nome de Deus. Havia duas irmandades, uma do Senhor e outra das Almas.

Quanto às ermidas, o cura informou: «Tem três ermidas, uma de Santo Sebastião, contígua ao povo, outra de Nossa Senhora da Encarnação, distante do povo um tiro de bala, outra de Santa Águeda, distante meia légua. A de Nossa Senhora da Encarnação é frequentada de romagem todo o ano e a de Santa Águeda no seu dia. A da Senhora da Encarnação é apresentada pelos oficiais da câmara deste povo e a de Santa Águeda pelo ordinário.»

As capelas de Santa Águeda e de Nossa Senhora da Encarnação eram zeladas por ermitões, mas esta pertencia à Câmara, enquanto a primeira era administrada pelo cura, em representação do bispo da diocese.

(1) ANTT, Registos Paroquiais, S. Vicente da Beira, Óbitos, livro 1, fólios 4-9v.

(2) ANTT, Memórias Paroquiais, Póvoa de Rio de Moinhos, volume 30, fólios 1875-1878.

José Teodoro Prata

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=192&id=15702&idSeccao=1994&Action=noticia

domingo, 19 de julho de 2009

Os maneios: ervagens e gados

Em artigo anterior, afirmámos que, na segunda metade do século XVIII, o povo da Póvoa continuava a dispor de terrenos baldios onde apascentar os seus gados, apesar do crescente individualismo agrário.
A documentação que consultámos, autos de arrematações (1) e autos de vereações camarárias (2), permite-nos identificar, na Póvoa, as seguintes ervagens: Boqueirões, ervagem da Abelheira, Coutada, ervagem da Lameira do Salgueiro, Navedeguas (Nave de Éguas, actualmente chamada Navedegas), ervagem das Regateiras, ervagem do Tiracalça, ervagem do Vale do Coelheiro, ervagem do Vale da Vinha e ervagem das Várzeas, entre outras.
A arrematação das ervagens era uma importante fonte de receitas. Em Agosto de 1776, a Câmara arrematou um bocado da Coutada, o couto da Fonte Ferreira, para pagar as ordinárias, imposto que o concelho tinha de pagar anualmente. A pastagem foi vendida para o período de S. Miguel até 12 de Março do ano seguinte.
No ano de 1768, em Abril, foram vendidas as pastagens das ervagens da Abelheira, das Regateiras e das Várzeas. No ano seguinte, as da Abelheira, das Regateiras, do Vale do Coelheiro e do Vale da Vinha. Em 1770, sempre na Primavera, arremataram-se as da Lameira do Salgueiro, do Tiracalça e do Vale do Coelheiro.
As informações dos dois parágrafos anteriores permitem-nos tirar algumas conclusões, suportadas ainda pelo que sabemos ter sido prática habitual nas ervagens do vizinho concelho de S. Vicente da Beira, nomeadamente na ervagem das Chiolicas.
As ervagens eram semeadas de pão cada três anos, ficando no ano seguinte de restolho e no outro de relva. Tanto os proprietários como os camponeses sem terra, os seareiros, aproveitavam estas terras para produzir centeio. Estes só usufruíam da terra entre a alqueivação e a ceifa. Finda esta, a ervagem voltava à propriedade comum dos vizinhos.
Estes eram livres de apascentar ali os seus gados, mas em algumas, por certos períodos, esse direito era exclusivo de quem arrematasse as pastagens à Câmara. Por exemplo, a ervagens da Abelheira e das Regateiras foram arrematadas, em 1768 e 1769, o que significa que o ano de 1770 foi o da cultivação. Por outro lado, as pastagens das ervagens da Lameira do Salgueiro e do Tiracalça só foram vendidas em 1770, tendo sido alqueivadas num dos anos anteriores e no outro ficaram como pastagens livres para os gados do concelho. Há ainda ervagens que nunca parecem arrematadas, o que significa que eram usadas livremente.
Os criadores de gado que arrematavam as ervagens podiam ser da Póvoa ou de fora. A arrematação era feita na praça e ficava com a ervagem quem desse mais. Além dos criadores da Póvoa, compraram pastagens, nestes três anos referidos, João Duarte Ribeiro do Casal da Serra, mas com raízes em Tinalhas e no Freixial, Manuel Henrique Neto de Tinalhas e Manuel Simão Barrigudo de Alcains.
Por vezes, os criadores associavam-se para comprar e aproveitar a pastagem. Assim aconteceu, em 1769, com a viúva Maria de Sousa que, com mais companheiros, arrematou a ervagem do Vale da Vinha, por sessenta mil e oitocentos réis.
Anualmente, todos os criadores de gado declaravam à Câmara o número de ovelhas que possuíam e a quantidade de lã produzida. Eram os chamados manifestos dos gados, para o conhecimento do «…juízo dos lanifícios da superintendência da vila da Covilhã.»
Neste ano de 1776, havia 10 rebanhos de ovinos na Póvoa, sendo um de dois criadores. O maior rebanho era o de Domingos Martins Cabaços, com 240 animais, e havia dois apenas com 60 ovelhas. Existiam um total de 1.165 ovinos (590 de lã branca e 575 de lã preta), que produziram 59 arrobas de lã branca e 57,5 arrobas de lã preta. Quase toda esta lã era obrigatoriamente vendida à fábrica da Covilhã, ficando cada família apenas com uma quantidade mínima, mas suficiente, para confeccionar a roupa e os agasalhos domésticos.
(1) ADCB, Câmara Municipal da Póvoa de Rio de Moinhos, Vereações, livro 1775-1777, caixa 1.
(2) ADCB, Câmara Municipal da Póvoa de Rio de Moinhos, Arrematações, livro 1767-1772, caixa 2.
José Teodoro Prata

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=186&id=14897&idSeccao=1925&Action=noticia

A economia local no século XVIII

(...)
Enquanto o trigo e o centeio marcavam presença, com maior ou menor intensidade, um pouco por todo o território que hoje integra o concelho albicastrense, já os milhos (com destaque para o “grosso” ou “maiz”) impunham-se nas freguesias de Castelo Branco, Alcains, Cafede, Escalos de Baixo e de Cima, Louriçal, Póvoa de Rio de Moinhos, Salgueiro, Sobral do Campo, Almaceda e Sarzedas, ou seja, em espaços onde a rede hidrográfica (com as suas margens cultiváveis) mais se adensava.
(...)

domingo, 28 de junho de 2009

O cultivo dos campos: folhas e ervagens

Póvoa de Rio de Moinhos - ontem e hoje

Em trabalho anterior, apresentámos a carta de emprazamento de um prazo da Ordem de Avis a Catarina Brás. Nele se referiam as folhas da Cabeça Carvalha, de Cea e do Vale da Vinha.
Ribeiro Sanches, no ano de 1777, na saudade da sua velhice parisiense, recordava a infância em Penamacor, cerca de 1700. Em “algumas causas da perda da agricultura de Portugal depois do ano de 1640”, define, em nota, o que eram as folhas: «…é aquele terreno que a Câmara da Vila determina para se lavrar, e cultivar naquele ano, deixando em relva o restante do termo para pastos dos animais. Por esta Economia Camaral, ficam todos os anos duas ou três partes das terras lavradas do Reino para pastos e uma ou duas partes para sustento dos Habitantes.»
Na Póvoa, o documento em estudo permite-nos concluir que as antigas folhas comunais já tinham passado, pelo menos em parte, para a posse de particulares, neste ano de 1766. No entanto, mantinham a designação de folhas e a prática do seu cultivo, com cereais, apenas de três em três anos.
As três folhas em causa situavam-se longe da vila, nas margens da Ocreza, na zona da actual barragem de Santa Águeda e imediatamente a jusante dela. Além destas, na margem esquerda da ribeira era a folha da Lardosa e na margem direita, um pouco mais acima, situava-se a folha das Chiolicas, actualmente chamada Cholcas, já no concelho de S. Vicente da Beira. Se a estas acrescentarmos a ervagem da Anta, a montante da actual barragem, que também se cultivava de cereais cada três anos, podemos concluir que todo o campo do vale da Ocreza, desde as proximidades do Louriçal até ao fundo do Vale da Vinha, fora desde tempos antigos terra baldia, que as autoridades arrematavam a particulares, proprietários ou seareiros, para o cultivo de cereais, principalmente de centeio, de três em três anos, ficando nos outros anos de restolhos e de relvas para os gados, em pastagem livre ou arrematada a criadores de gado.
Neste caso concreto, pelo menos parte destes baldios andavam na posse da Ordem de Avis. Este facto não contradiz o afirmado anteriormente, uma vez que originalmente a Póvoa foi pertença desta ordem, dela tendo recebido autonomia administrativa.
Como vimos, no século XVIII, a propriedade comum das folhas já evoluíra para propriedade particular. Outra marca do crescente individualismo agrário era a vedação das propriedades particulares com paredes, as chamadas tapadas. Elas já existiam na Horta do Salvado e junto à povoação, permanecendo ainda abertos os campos e pastagens das margens da Ocreza.
No dia 2 de Janeiro de 1777, fez-se o auto de vistoria de uma tapada de António Marques Carolo o velho, a fim de verificar se a vedação da propriedade com paredes prejudicava os interesses da população. A Câmara estava representada por um juiz ordinário, pelos dois vereadores e pelo procurador do concelho. Os interesses do povo foram defendidos pelo procurador do povo e oito pessoas da governança. A tapada foi autorizada, por não dar «…prejuízo a pessoa alguma, nem ao bem comum do Povo.»
Mas o povo continuava a deter alguns espaços baldios, geridos pela Câmara. Em próximo artigo, ocupar-nos-emos destas ervagens e da sua utilização pelos criadores de gado da Póvoa.
José Teodoro Prata

Castelo Branco e a sua economia agrícola


Por João Marinho dos Santos

Antes de apresentarmos uma caracterização da economia agrícola do concelho de Castelo Branco, em meados do século XVIII, teremos, obviamente, de falar, ainda, da Lardosa quanto ao então seu posicionamento administrativo. A freguesia mais a nordeste do actual concelho de Castelo Branco integrava o termo da vila de Castelo Novo.
Situada, também, em “vale” ou campina e vizinhando com Lousa, Escalos de Cima, Alcains, Póvoa de Rio de Moinhos e Louriçal do Campo, esta(va), portanto, plenamente integrada no “campo”. Tinha como anexa única um “monte”, mas demograficamente considerável (145 pessoas), contabilizando, então, a sede mais de meio milhar de indivíduos. Centeio, azeite e vinho eram os produtos principais, perfeitamente adequados, portanto, às culturas do “campo” da zona norte.
Tanto na zona do “campo” albicastrense, como na da “charneca”, os cereais (trigo, centeio e milho) continuavam a afirmar-se, no século XVIII, como produções dominantes, com relevo para o centeio. Claro está que a mancha territorial ocupada pelo “cereal pobre” não era homogénea, podendo e devendo assinalar-se que, no “campo” meridional, o trigo deveria suplantá-lo. Por sua vez, na zona central do “campo”, o equilíbrio entre os dois tipos de cereal já deveria ser maior. Por freguesias e numa intensidade decrescente, o trigo marcava presença nas de Monforte, Malpica, Mata, Escalos de Baixo e Escalos de Cima, Castelo Branco, Cafede e Salgueiro, ou seja, onde o habitat humano se mostrava mais concentrado, com explorações agrícolas de maiores dimensões e mais isoladas.
Reconheçam-se, no entanto, as fragilidades frequentes da cerealicultura, quer devido a maus anos agrícolas (ou por escassez de chuvas ou por abundância delas e, sobretudo, a destempo), quer pelo surgimento de pragas, como as terríveis nuvens de gafanhotos. Concretamente, pelos anos 30 e 40 do século XVII, valia aos habitantes do então concelho de Castelo Branco a pecuária, já que uma persistente praga de gafanhotos vinha destruindo as “novidades”. E, no ano de 1781, mais propriamente na sessão da câmara municipal de Castelo Branco que decorreu a 11 de Maio, foi lido um ofício do Intendente Diogo Inácio de Pina Manique com instruções para se evitar ou aniquilar a ameaça dos gafanhotos que já pairava sobre a raia de Espanha e estava a alastrar ao “campo” de Castelo Branco. Aliás, como mais adiante assinalaremos, a devoção à Senhora dos Altos Céus, na Lousa e suas redondezas, deveu-se, em grande parte, à eliminação miraculosa de uma terrível praga de gafanhotos.

O cultivo dos campos: um prazo da Ordem de Avis

Póvoa de Rio de Moinhos – ontem e hoje

No século XVIII, tal como hoje, existiam pequenos, médios e grandes proprietários agrícolas. Mas algumas famílias não cultivavam as terras, por diferentes motivos. Noutros casos, elas pertenciam a entidades não vocacionadas para a actividade agrícola: comendas, confrarias, conventos… Uns e outros arrendavam as suas terras, ou emprazavam-nas, como se dizia na época, a lavradores, a troco do foro, a renda de então.
Um dos grandes proprietários da Póvoa era a Ordem de Avis, que aqui detinha terras, desde os tempos medievais. Estas e as outras propriedades desta ordem no concelho de S. Vicente da Beira formavam uma comenda, dada a comendadores, da família dos Costas, grandes nobres que sempre ocuparam o cargo de armeiro-mor do Reino.
Um conjunto de propriedades da Póvoa, pertencentes a esta comenda de S. Vicente da Beira da Ordem de Avis, andava há várias gerações na posse da família Malha. Nessa época, os contratos eram por três vidas, podendo os foreiros transmitir a posse das terras emprazadas aos seus descendentes, por muitas gerações.
Em 1766, Catarina Brás, irmã do P.e Manuel Rodrigues Malha, o cura das Memórias Paroquiais, requereu à Ordem de Avis a renovação do prazo que trouxera seu irmão Dionísio Rodrigues Malha, o qual falecera solteiro e sem descendência.
Este prazo era formado por sete propriedades, cujos direitos de usufruto Dionísio Rodrigues Malha herdara de seu pai, Manuel Rodrigues Malha, de sua tia solteira, Brites Fernandes, e de Miguel Nunes.
É deste prazo que Catarina Brás reivindica a posse, apesar de já deter um outro, possivelmente também da comenda de Avis, que herdara do seu tio Vicente Fernandes, como herdeira mais directa.
O prazo emprazado a Catarina Brás era formado pelas seguintes propriedades:
Meia sorte de terra na folha da Cabeça Carvalha, ao Vale do Sabugal: era terra sem árvores, com um curral, que produzia centeio e alguns feijões fradinhos; pagava de foro meio alqueire de trigo, três quartas de centeio e meia galinha.
Uma sorte na folha de Cea, no Porto Cozendo: semeava-se de centeio e tinha alguns carvalhos; pagava alqueire e quarta de trigo, três meios de centeio e uma galinha.
Outra sorte na folha de Cea, nas Várzeas: era terra pobre e cultivava-se de centeio; pagava alqueire e quarta de trigo, três meios de centeio e uma galinha.
Uma sorte na folha do Vale da Vinha, da parte dalém da ribeira: era terra sem árvores, muito pobre e fria; produzia centeio e pagava um alqueire de trigo, outro de centeio e uma galinha.
Uma sorte na folha do Vale da Vinha, ao Cabeço da Cerejeira: tudo eram cabeços, sem árvores algumas; produzia centeio e pagava meio alqueire de centeio, meio alqueire de trigo e uma galinha. Esta sorte e as anteriores só pagavam foro no ano da cultivação, que era de três em três anos. Nos outros anos, ficavam de restolho e de relva, para os gados. O foro correspondia a um oitavo da produção.
Uma terra na Horta do Salvado: tinha uma figueira e era terra muito fria e de cabeços e lajes pelo meio; produzia centeio e pagava, todos os anos, um alqueire e uma quarta de trigo.
Um quintal ao pé da Igreja da Póvoa: tinha duas figueiras e duas oliveiras, levava de semeadura uma quarta de centeio e pagava um alqueire de centeio, todos os anos.
Catarina Brás pagava o foro ao prioste, «…por dia de Nossa Senhora de Agosto. E o trigo e centeio há-de ser bom e de receber, limpo de pá e vassoura, do melhor que derem as terras do dito prazo…». O prioste era quem, localmente, arrecadava as rendas devidas à comenda de Avis.
Em próximo artigo, abordaremos a questão da propriedade comum e privada dos espaços agrícolas.

(ANTT, Ordem de Avis, A Catharina Bras, carta de emprazamento em vidas, livro 42, fólios 144 a 159)

José Teodoro Prata

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Pelo antigo concelho de São Vicente da Beira

por João Marinho dos Santos
Prestando atenção à economia e à demografia das freguesias que, em meados de Setecentos, integravam o concelho de São Vicente da Beira, colhemos informação que nos permite desenhar as seguintes imagens.
O lugar de Freixial do Campo, segundo o respectivo cura, estava confinado, então, a «uma so rua», com 38 “fogos”, embora a paróquia contasse mais dois “casais” com 19 “fogos”, o que perfazia 57. Reconheça-se que é já o “campo” (patente aliás na designação do lugar) ou um “vale”, no dizer do informador, que estrutura o território desta freguesia. Contudo, a proximidade à “charneca” é ainda grande, pelo que, confinando com Almaceda, tinha, como principais produções, o centeio, o feijão-frade e o azeite.
A leste de São Vicente da Beira e, portanto, igualmente bem integrado nas abas meridionais da Gardunha, o lugar de Louriçal do Campo, naquela época com um fundo demográfico relativamente considerável (147 “fogos” ou “vizinhos”) e sem povoações anexas, colhia também, em «mediana abundância», alguns frutos próprios da “charneca” e do “campo”, a saber: centeio, milho grosso, feijão, castanha e azeite. Assinale-se, contudo, que a rocha dominante já é o granito, com a vantagem da produtividade da “fazenda “de solos arenosos contar, e muito, com a fecundidade do maior curso de água da zona – o Ocreza.
Ninho do Açor, a sul de São Vicente da Beira, continua(va) a ter, por sítio, mais «de montes que de vales, ou campina», no dizer do cura que assinou as respostas ao questionário de 1758. Deste modo, o retrato paisagístico Setecentista, que poderemos debuxar, assemelha-se ao de Louriçal do Campo, ou seja, o centeio, o feijão e o azeite constituíam o suporte económico dos cerca de 40 “vizinhos” ou “fogos” que residiam no lugar, sem qualquer povoação anexa.
Póvoa de Rio de Moinhos também não dispunha, então, de qualquer aglomerado populacional sufragâneo, mas a dimensão demográfica da freguesia (150 “fogos” com cerca de 500 pessoas) concorria, por certo, para que fosse «concelho sobre si», ou seja, para que tivesse jurisdição própria em tudo o que pertencia ao foro cível. Em termos económicos, a leste de Tinalhas e já mais próxima do coração do “campo” albicastrense, a Póvoa produzia, a par do centeio, do milho, do feijão e do azeite, um bem susceptível de ser mercantilizado – o vinho. Aliás, o número de equipamentos industriais instalados, então, nos limites desta freguesia e a sua diversidade (moinhos, pisões, lagares de azeite, “tintas” ou tanques de tingir) indiciava sobre a riqueza do respectivo “campo”.

Matrícula dos Moradores, 1779: um retrato social

A boa administração do Reino tornou-se um objectivo do poder central, na segunda metade do século XVIII. Mas para bem governar era imperioso conhecer e por isso se ordenou a contagem da população.
Foi o juiz de fora de S. Vicente da Beira quem coordenou o registo dos moradores da Póvoa, na sequência da matrícula dos moradores daquele concelho, embora a Póvoa fosse um concelho à parte. Certamente foi coadjuvado pelas autoridades da Póvoa, as quais terão registado os moradores desta vila.
O documento encontra-se no Arquivo Distrital de Castelo Branco, fundo da Câmara Municipal de S. Vicente da Beira, “Matrícula dos Moradores da Vila e Termo”, livro 1779, maço 35. Foram apontados o nome de cada chefe de família, o seu estado civil, o número de filhos ou outras pessoas que com ele vivam e a actividade económica ou profissional que garantia o sustento da casa.
A Póvoa contava, em 1779, 167 agregados familiares, num total de 520 habitantes. A média, por família, era de 3,1 pessoas, o que constitui um valor abaixo da média no Reino, que rondava as 3,5 pessoas por agregado familiar.
Nesta época, ainda eram frequentes as mortandades, por má alimentação, falta de higiene e poucos conhecimentos da ciência médica. De anos em anos, morriam quase todas as crianças e por vezes também grande número de jovens e adultos. Por isso, a população não aumentava, as famílias tinham poucos membros e a esperança de vida pouco passava dos 40 anos.
Quanto ao estado civil, 23 (14%) famílias eram chefiadas por pessoas solteiras, 99 (59%) formavam casais e 45 (27%) por pessoas viúvas. Nos casados, incluímos duas mulheres abandonadas pelos maridos.
Elas surgem em reduzido número, pois o chefe da família era quase sempre homem. As mulheres chamavam-se: Ana, Angélica, Catarina, Domingas, Engrácia, Francisca, Isabel, Joana, Joaquina, Josefa, Leonor, Maria, Maria da Conceição, Maria do Carmo, Margarida, Perpétua, Quitéria, Rita, Teodora e Vitória. Os nomes masculinos mais usados eram Manuel (33), José (14), Domingos (13), António (7), Francisco (7) e João (6). Quanto aos nomes de família, os habitantes da Póvoa distribuíam-se por mais de 50 apelidos.
Nesse tempo, os apelidos variavam em género. Havia o Domingos Leitão e a Margarida Leitoa, o João Franco e a Maria Franca. Se o pai e o filho tinham o mesmo nome, distinguiam-se assim: António Marques Carolo o velho e António Marques Carolo o moço.
Aos nomes de alguns moradores foram acrescentadas as alcunhas, para melhor os identificar. Alguns exemplos: António Alves Alferes, Domingos Franco Passarinho, José Fernandes Papudo, Manuel Alves Medelim, Manuel Fernandes Bronco, Manuel Fernandes Ferros, Manuel Vaz Almaceda e Maria Nunes da Estalagem.
Nos homens, não se fez distinção social, mas uma viúva destacou-se de todas as outras mulheres pelo título. Era a Dona Perpétua, tinha três filhos e vivia da lavoura. Uma outra mulher também foi diferenciada, mas por outro motivo. Chamava-se Josefa de Mena e era muda.
Em próximo artigo, faremos o retrato socioeconómico da Póvoa, a partir do mesmo documento.
José Teodoro Prata


Fonte:http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=176&id=13393&idSeccao=1782&Action=noticia