quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Uma família da Póvoa de Rio de Moinhos em Santos (Brasil)

Deixar a Póvoa diminuiu nosso tempo de vida

Meus bisavós José dos Santos Silva e Maria Rita, naturais da Póvoa de Rio de Moinhos, imigraram para o Brasil e desembarcaram na cidade portuária de Santos, no Estado de São Paulo, em 07.10.1912. José foi trabalhador portuário na Cia. Docas de Santos, enquanto Maria Rita ocupava-se dos serviços domésticos de seu lar. Consigo trouxeram Abrahão, também natural da Póvoa de Rio de Moinhos, nascido em 08.12.1911. Abrahão era o meu avô paterno.

José, Maria Rita e Abrahão não vieram sós. Vieram com eles alguns primos e alguns anos mais tarde vieram José Martins e Maria Joaquina (irmã da Maria Rita). José Martins era primo em primeiro grau de Maria Joaquina, mas acabaram por se casar em Santos. José Martins, como seu primo José dos Santos Silva, foi trabalhador portuário.

Meus bisavós tiveram mais quatro filhos aqui no Brasil: Maria Rosa, Ermínia, Felícia e Ernesto. Com exceção de Ernesto, os outros nomes são típicos da Póvoa. Ernesto parece-me já uma influência bem paulista.

Meu avô Abrahão participou da Guerra Paulista de 1932 como soldado voluntário e mais tarde tornou-se também um trabalhador portuário.

Os membros da primeira geração de minha família da Póvoa trabalharam duro no cais do porto. A segunda geração foi mais bem preparada e a maioria ocupou-se de serviços administrativos. Meu pai era técnico em contabilidade. Os descendentes da terceira e quarta gerações estudaram ainda mais. Hoje há professores, advogados, engenheiros e cientistas.

Abrahão, como todo mundo, tem 16 trisavós: nove são naturais da Póvoa, três de Alcains, dois de Escalos de Baixo, um de Castelo Branco e um da Lardosa. Conheço cerca de 1360 antepassados de meu avô Abrahão, ao longo de 17 gerações. Entre os que nasceram no Concelho de Castelo Branco, a maioria nasceu na Póvoa: 36,4 por cento.

Pelo lado de seu pai, Abrahão descende dos Costas Riscados e dos Goulões de Alcains. Também descende dos Francos, dos Folgados e dos Benesperas, entre outras famílias da Póvoa. Pelo lado de sua mãe, descende dos Pratas e dos Saraivas, da Póvoa.

A Póvoa de Rio de Moinhos é uma aldeia. Basta que uma família tenha vivido na Póvoa por algumas gerações e ela terá profundas ligações familiares com todas as outras famílias. Isto significa que temos dezenas de antepassados em comum. Com exceções, é claro, todos lá são parentes.

Finalizo com uma curiosidade. Meu bisavô José dos Santos Silva deixou na Póvoa de Rio de Moinhos uma irmã: Maria Augusta Folgado. Meu bisavô teve cinco filhos enquanto que Maria Augusta Folgado teve oito. O tempo médio de vida dos filhos de José aqui no Brasil foi algo em torno de 70 anos ao passo que o tempo médio de vida dos filhos da Maria Augusta é de 90 ou mais anos. Não há aqui no Brasil nenhum filho de José ainda vivo. A maioria dos filhos da Maria Augusta ainda vive. Meu avô Abrahão nasceu em 1911. Sua prima em primeiro grau, Dona Isabel Folgado, nascida em 1912 está viva e muito bem, graças a Deus. Creio que deixar a Póvoa diminuiu nosso tempo de vida!

Lourval dos Santos Silva

Fonte:http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=206&id=17408&idSeccao=2181&Action=noticia

domingo, 8 de novembro de 2009

BTT

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Josephine Addison: a "nossa" imigrante

Conhecida por todos os habitantes da nossa terra e carinhosamente apelidada de ‘Inglesa’, o artigo de hoje é-lhe inteiramente dedicado, a ela, que adoptou a nossa pátria como sua, aqui fazendo vida, há mais de dez anos.

Cumprindo o ritual de homenagear os que daqui foram e os que aqui chegaram, vamos conhecer Josephine Mary Addison, a ‘Inglesa’, que muito nos surpreendeu. Agora é, pois, a sua vez.

Nasceu em Inglaterra, em 1928, no condado de Yorkshire, uma provícia no norte de Inglaterra. Iniciou a sua vida laboral, com apenas 16 anos, como desenhadora, num escritório de Engenharia. Apaixonada pelos números, licenciou-se em Matemática, mas não quis, nessa altura, seguir a via do ensino.

Em 1955, alistou-se no exército, tornando-se uma das primeiras mulheres a fazê-lo, em Inglaterra. Esteve ao serviço, na unidade de Engenharia Electromecânica, durante três anos.

Seguiu-se um período de dois anos, em Gibraltar, local onde trabalhou, num escritório, e viveu uma vida social intensa, facto que a encantava, mas era insuficiente para se realizar profissionalmente.

Voltou, então, para Inglaterra onde, em Londres, num colégio privado, com grande diversidade cultural, leccionou Engenharia Mecânica pela primeira vez. Certo dia, é abordada por um aluno chinês que lhe sugere que se candidate a um lugar de professora, num Instituto Politécnico de Singapura. Este foi um dos sonhos que Josephine iria, em breve, concretizar, pois tinha fascínio pela cultura oriental.

Singapura, onde leccionou por um período de três anos e meio, permitiu-lhe aventurar-se à descoberta de vários países, como a Tailândia, Hong Kong, Sri Lanka, Bornéu, Afeganistão, Paquistão, India, entre outros. Conheceu e atravesssou cada país em transportes públicos, o que lhe possibilitou um contacto muito próximo com as pessoas e, consequentemente, com a cultura que elas representam.

Em 1965 regressa a Inglaterra por meia dúzia de anos. Volta ao ensino, em Londres e na Escócia, tira o curso de Engenharia Civil e trabalha durante um ano numa Câmara Municipal.

Uma vez mais o Médio Oriente atrai Josephine, que viaja, para Hong Kong, onde lecciona até aos 60 anos, altura em que legalmente se deveria aposentar, perspectiva que não agradava à nossa protagonista de hoje.

Inicia imediatamente uma busca de emprego nos jornais e encontra, aquele que seria o último emprego da sua vida laboral: professora, na Universidade de Macau, durante dez anos.

Em 1992 decide visitar o nosso país. Portugal já lhe tinha despertado antes algum interesse especialmente por considerar que aqui poderia adquirir uma habitação própria mais facilmente do que na sua terra natal. Em Faro, aluga um carro e vai caminhando rumo a Norte até chegar a Castelo Branco, numa certa noite de Setembro.

No dia seguinte, descobre, numa imobiliária, aquela que seria a sua residência actual, uma casa na nossa aldeia, lugar onde poderia viver a sua vida, tendo por companhia os seus fiéis amigos. Abandona definitivamente Macau em 1998 e desde então, Josephine vive, na Póvoa de Rio de Moinhos, com os seus cães, que trata e estima de uma forma admirável.

Do nosso país, aprecia o clima, os bons vinhos, que cá se produzem, a simpatia e a simplicidade das pessoas. Confessa que a barreira da língua nem sempre foi um aspecto fácil de ultrapassar, contudo, frequentou aulas de língua portuguesa e, passados mais de dez anos, domina, curiosamente melhor a escrita que a oralidade.

Os seus dias são repartidos entre as lides domésticas e os longos passeios, com os seus cães, ritual que cumpre diariamente. Lamenta o facto de ter sentido de perto a falta de respeito e cuidado pelos animais. Com imensa tristeza e alguma revolta afirma que já perdeu treze dos seus leais amigos por envenenamento, especialmente quando o passeio acontece para a zona norte da aldeia. Ocasionalmente acontecem algumas saídas, até à cidade, e, por vezes, janta com uma amiga, que conheceu aqui, amizade esta que cultiva desde essa altura. Gosta de ler, de ouvir música e confessa-se apaixonada por jogos de computador, que usa também, para se manter ligada ao mundo e aos familiares que vivem em Inglaterra. Detesta ter que lidar com a burocracia, que lhe é imposta, quando, mesmo para resolver assuntos simples, se vê subjugada à tão típica montanha de formulários! Confessa que gostaria de ser útil à comunidade, o que não acontece tanto como desejava, por ainda persistir alguma dificuldade na oralidade, não fossem as nossas “vogais de todas as cores e feitios!”

Lamenta nunca ter exercido a sua verdadeira paixão, a Engenharia Civil, e talvez seja essa a razão pela qual acompanha de perto e reconhece as mudanças verificadas nas casas que recuperámos e construímos. Aprecia a renovação e confessa gostar de mudanças e de decoração, outro dos seus interesses manifestado, ao referir as “ lovely houses” da aldeia.

Voltou à sua Inglaterra para visitar a família que, anos mais tarde, lhe devolveu a visita na nossa terra.

Josephine Mary Addison conta hoje 80 anos. Esta senhora, de forte carisma, nunca deixou de superar as adversidades. Conheceu e viveu de perto outras culturas muito diferentes da nossa. Adaptou-se e hoje vive de forma tranquila na Póvoa de Rio de Moinhos.

Nós, que temos um considerável historial de emigração, consideramos, e muito, a ‘nossa’ imigrante de estimação.

Célia Freire da Cruz


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=204&id=17213&idSeccao=2156&Action=noticia

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A vida no tempo dos nossos avós

Já vimos como era a vida dos moleiros e dos pastores em Póvoa de Rio de Moinhos. Nesta freguesia rural, do interior, a maioria das pessoas vivia do campo e do que ele produzia.

A Póvoa está rodeada de um labirinto de quelhas, em pedra, que ladeiam caminhos que levam às hortas.Quase todas as famílias tinham uma horta onde cultivavam couves e alfaces, feijão, cebolas e batatas, religiosamente guardadas para no Inverno poderem sobreviver. Estas quelhas que levam às hortas deviam ser preservadas, mas a pouco e pouco estão a ser destruídas. No tempo da apanha da azeitona organizavam-se ‘camaradas’, conjunto de homens e mulheres que trabalhavam para as casas grandes: José da Fonseca, Martinho Dias, D.Antónia, etc.

A partir da primavera e sobretudo no tempo das colheitas, um rancho de mulheres, as ‘terceiras’, trabalhavam também para aquelas casas. Chamavam-se assim, porque recebiam um terço das colheitas (milho, feijão, etc). No verão ouviam-se os cantares nas eiras, por altura das desfolhadas do milho e do malhar do feijão.

As pequenas hortas, era preciso regá-las, por causa do calor que tudo secava. A água dos poços era tirada à picota, com um caldeiro. Quando o verão era muito sêco, até o chafariz secava e era preciso acumular a água do poço, de mergulho, ao lado da bica, para ter água para beber em casa.

Havia algumas profissões que resolviam os problemas quotidianos.

O tio Zé Lino era ferreiro e a sua forja ficava no fundo da Quelhinha do Reduto, nome que lembra qualquer lugar do antigamente onde, em caso de perigo, a população teria que recolher-se e defender-se. Na forja, eram afiadas as ferramentas da agricultura: picaretas, sachos e outros. Este homem vivia numa casa próximo da forja, que ainda hoje ostenta numa janela, uma pedra com a seguinte inscrição: “No ano de 1575 vale o pão a cruzado” . Para registar este facto, era porque o valor era alto e quem o fez, pretendia chamar a atenção dos vindouros, para a carestia da vida e a pouca comida que nem a todos chegava.

O tio António Domingos era pedreiro. Eu diria que era mais escultor que pedreiro: deixou-nos uma jóia feita por si, que é o escudo que está por cima da entrada principal da escola primária.

O barbeiro, cortava o cabelo e as barbas, mas também arrancava dentes. Dava injecções e também curava feridas ligeiras.

Quando chegava a altura das vindimas, durante o mês de Setembro, conforme os anos, era necessário preparar as vasilhas para receber o vinho. O Chapoula sempre foi uma figura emblemática da Póvoa. Era ele que preparava as dornas, os pipos e outros artefactos necessários à fabricação do vinho. Era inclinado aos copos e quando estava com eles, entrava em delírio. Como tinha sido militar em Coimbra percorria as ruas a fazer discursos que terminavam sempre assim: “General de Coimbra, ó clarim, toca a formar”. Discursava bem e quando havia procissões, lá ía ele também a fazer discursos. Um dia fez tantas ou tão poucas na procissão, que o sacristão teve de o fechar na torre da Igreja. Não reparou o sacristão que lá dentro havia uma escada das da azeitona. O Chapoula viu logo o furo: agarrou nela, pulou para a plataforma do sino, saiu para a rua pela porta da Igreja. Quando todos caminhavam devotamente na procissão, lá apareceu ele outra vez.

Sempre que se aproximava a época das vindimas, deixava de beber e resolvia a maior parte dos problemas dos seus clientes.

A roupa doméstica era lavada nas ribeiras e posta a corar ao sol, que substituia os detergentes. O sol quente de Julho e Agosto queimava, mas como me referiu um velho, “ dizem que o sol queima/ mas o sol dá linda côr/ nunca vi criar à sombra/ coisa de grande valor”. Também ele entrava na rotina do crescimento da natureza.

Além do Padre e do Professor havia também o Regedor, para manter a autoridade e a ordem. Às vezes havia a sua zaragata e uns copitos a mais não davam bom resultado. Os homens, no Domingo, jogavam “às malhas”. Duas equipas tentavam derrubar os pinos postos a alguma distância. Quem mais pontuasse, ganhava. Tudo terminava na taberna, para brindar à saúde dos que ganhavam e dos que perdiam. Havia duas ou três tabernas, lugar de encontro e troca de informaçôes sobre a vida da aldeia. Assim corria a vida no tempo dos nossos avós.

Para alguns, contudo, a vida não era fácil e para esses a solução encontrava-se na emigração.

José Antunes Leitão


Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=202&id=16972&idSeccao=2129&Action=noticia